domingo, 6 de maio de 2018

António Quadros (25 anos depois) e a Filosofia Lusófona

Defendeu António Quadros que “o pensamento de um filósofo, nascido de uma fusão entre ele mesmo e o meio circundante, da interpretação das suas faculdades sensitivas e espirituais e do ambiente humano e mesológico, é eminentemente individual, local e temporal”. Daí, cumulativamente, a sua expressa defesa de uma “filosofia portuguesa ou de uma filosofia de língua portuguesa” (ou ainda, diríamos nós, de uma Filosofia Lusófona) – a qual, sendo expressão da nossa forma de ser, estar, sentir e pensar o mundo, não poderia jamais constituir-se como uma forma de enclausuramento, mas, pelo contrário, de abertura: “Nunca os teorizadores de uma filosofia portuguesa ou de uma filosofia de língua portuguesa pretenderam afirmar uma sua existência positiva com finalidades de enaltecimento nacionalista ou restritivo, e muito menos criar uma tradição filosófica para satisfação de pruridos autolátricos, castiços ou aristocráticos.”; “Sejamos solidários com o mundo, mas activamente, dinamicamente, criadoramente. Esta é a ideia que garante e legitima a teorização de uma filosofia portuguesa.”.
Na esteira de António Quadros, equaciona-se pois a nossa “diferença”, a nossa “relativa verdade”, em última instância, a “relativa verdade” de todas as filosofias. E isto sem se defender, necessariamente, a relativização da Verdade: “A verdade é só uma? Talvez. Mas cada homem – e mais largamente cada país, está colocado em situação diferente em relação à verdade, relação da parte para o todo, entenda-se. A verdade é só uma, mas desabrocha em infinita variedade e plasticidade. Reduzir todos os planos da paisagem a uma só, ontem o plano de Florença ou Roma, hoje o plano de Paris, amanhã o plano de qualquer outra cultura igualmente totalitária e exigente, é empobrecer as possibilidades de alargamento de compreensão universal. Pelo contrário, possibilitar o desenvolvimento de tantas estéticas quantos os países, de tantos prismas de observação e de conhecimento quantas as resultantes de um determinado circunstancialismo geográfico, étnico, psicológico, político, social e filosófico, é aumentar em número proporcional as ‘tomadas de contacto’ com a verdade.”.

E por isso acompanhamos ainda António Quadros quando este defende que “ainda bem que os caminhos e os caminhantes são múltiplos e diferentes”. Se o não fossem, como nos diz ainda, “teríamos todos um único horizonte, um único modo de ver e de contemplar – marcharíamos todos como carneiros, quem sabe se para o abismo?”. Ainda nas palavras de António Quadros: “A multiplicação das culturas, a heterogeneidade dos pensadores, pelo contrário, aumenta proporcionalmente as tomadas de contacto com o Ser. A existência das filosofias nacionais garante o enriquecimento e a vivacidade das possibilidades de conhecimento dos humanos.”. Isto, como é óbvio, na premissa de que cada “filosofia nacional”, de que cada “filosofia situada”, traz, efectivamente, algo de novo, de único, isto, como é óbvio, na premissa de que cada cultura, de que cada comunidade, de que cada homem, traz, de facto, algo de singular. Mas essa é, explicitamente, a premissa de que parte António Quadros. É, aliás, por isso, precisamente, que, para este pensador, a própria “identidade portuguesa” está, ainda e sempre, em aberto – à espera que cada um de nós contribua para o seu “acabamento”.

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