quinta-feira, 26 de abril de 2018

A(s) crise(s) das sociedades contemporâneas





Num recente Colóquio decorrido na Universidade Católica Portuguesa (19-20 de Janeiro de 2018), subordinado ao tema “O regresso das humanidades: identificar crises, construir valores, procurar sentidos”, tivemos a oportunidade de assinalar algumas das crises maiores das sociedades contemporâneas, em particular das sociedades ocidentais.



Começando por assinalar a própria crise do conceito de Humanidade, que para algum pensamento pós-moderno parece mesmo ser um alvo a abater, como se o conceito de Humanidade fosse, por si só, algo de negativo, senão mesmo um sinónimo de destruição, como se uma visão holística do mundo tivesse de ser necessariamente anti-humanista, dissertámos depois sobre aquela que nos parece ser a marca maior das sociedades contemporâneas, em particular das sociedades ocidentais: a sua fragmentação.
Porque somos pouco dados a visões dicotómicas (e, menos ainda, a visões maniqueístas), ressalvámos que essa marca negativa é, em grande medida, o reverso daquela que é provavelmente a marca mais positiva da civilização ocidental: a defesa dos direitos individuais dos cidadãos. Aqui em significativo contraste com as civilizações orientais, que, por terem, em geral, preservado mais a dimensão colectiva sobre a individual, têm resistido mais a essa fragmentação social.
Não cremos, porém, que nada na história da humanidade esteja irreversivelmente pré-determinado. Por isso, a nosso ver, é sempre possível contrariar esse fenómeno da fragmentação, por mais avassalador que este seja. Pelo menos, tentar, reconstruindo essa dimensão comunitária, sem que isso ponha em causa os direitos individuais dos cidadãos, apostando, sobretudo, nos laços histórico-culturais, porque são estes que mais resistem à erosão do tempo, como a História tem sobejamente comprovado. O aparentemente ultrapassado conceito de “povo” era isso mesmo que, no essencial, denotava: uma comunidade histórico-cultural, que partilha um passado, um presente e um futuro.
No caso português, porém, permanecem grandes entraves, cada vez maiores, a esse desiderato. Um exemplo recente e significativo: no jornal PÚBLICO, Manuel de Matos Fernandes, Professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, retomou a proposta da “criação de um Museu dos Descobrimentos” (16.01.2018), promessa reiteradamente feita e reiteradamente adiada aos mais diversos níveis do Estado. Mas, na edição on-line do jornal, logo alguém ripostou que criar um Museu dos Descobrimentos significaria “celebrar o genocídio dos índios e o tráfico de milhões de escravos africanos”.
 
Ou seja: não se pode celebrar a nossa Independência porque foi feita “contra os mouros”; não se pode celebrar a Expansão Marítima porque foi feita “contra os índios e os africanos”; supomos que também não se possa celebrar a Restauração da Independência porque foi feita “contra os espanhóis”. Em breve, por este caminho, se em alguma aula falarmos de Platão e de Aristóteles, corremos o risco de nos ripostarem que não se pode falar deles, ou de qualquer outra figura da Grécia Antiga, por causa da escravatura (sim, é igualmente sabido: a glorificada Grécia Antiga assentava, em grande medida, social e economicamente, na escravatura). Os arautos do politicamente correcto, com efeito, só ficarão satisfeitos quando renegarmos por inteiro a nossa história. Com eles, não há passado. Nem passado nem futuro.



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