segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Carta a João Ferreira



Caríssimo Amigo,

Quero felicitar-te pelos teus vigorosos noventa anos de vida, sem esquecer o título que recebeste igualmente este ano: o de Cidadão Honorário de Brasília, onde vives desde 1968.

Lamento que em Portugal não tenha surgido nenhuma iniciativa similar. Sem surpresa, porém. Por cá, esse tipo de títulos só se dá a quem teve as militâncias certas. Se, por exemplo, tivesses sido estalinista, ainda te arriscavas a receber a Ordem da Liberdade. Como insistes em ser leonardino (eles não sabem nem sonham o que isso é…), não tens a menor hipótese.

Sei, contudo, que não te moves por esse tipo de ambições. Não te conheço tão bem quanto gostaria, mas conheço-te o suficiente para saber que és um “homem bom”. E olha que quem o diz não é propriamente a pessoa mais optimista no plano antropológico.

Conhecemo-nos, tanto quanto me lembro, em 2006, nas Comemorações do Centenário do Nascimento de Agostinho da Silva, pessoa que ambos muito continuamos a admirar e que te convidou para seres Professor na Universidade de Brasília. De então para cá, só nos temos encontrado nos teus raros regressos à Mátria, decerto bem mais raros do que ambos gostaríamos. Mas sem problema: ainda há muita vida à nossa frente.

Aproveito a oportunidade para te dizer algo que, julgo, nunca te disse. Um dos livros mais marcantes na minha formação foi o teu “Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa” (Editorial Franciscana, 1965). Sobretudo porque tratas o Problema da Filosofia Portuguesa como deve ser tratado – não como uma “Bandeira” mas como uma “Obra”. E, por isso, nesse teu livro, tens o cuidado de apresentar muita (e boa) Bibliografia.

Ambos sabemos, porém, que, tão ou mais importante do que a Obra feita, é a Obra por fazer. Também aí, tens dado o teu importante contributo, ainda que sejas avesso a publicações. Não obstante os reiterados convites, contam-se pelos dedos, por exemplo, os textos que tens publicado na Revista NOVA ÁGUIA. Sendo que sei que esses textos também não são publicados noutros sítios. Mas sem problema: ainda há muita vida à nossa frente e a NOVA ÁGUIA estará sempre disponível para acolher textos teus. Chegámos já ao nº 20 (também sem qualquer reconhecimento institucional), mas contamos chegar muito mais longe.

Um dia, como é nosso desejo comum, a Pátria Lusófona cumprir-se-á e honrará, ainda que apenas postumamente, os seus “melhores”. Ambos, bem o sei, estamos absolutamente certos disso – não por um qualquer pré-determinismo histórico, apenas, tão-só, porque essa é a Vontade crescente dessa Fraternidade Lusófona que tu tanto conheces e, sobretudo, tanto amas. Enquanto esse dia, que ainda parece muito longínquo, não chega, aceita o maior Abraço deste teu Amigo, extensivo à Márcia.

Sem comentários:

Enviar um comentário

CARO/A VISITANTE, CONTRIBUA NESTA DEMANDA. ACEITAREMOS TODOS OS COMENTÁRIOS, EXCEPTO
OS QUE EXCEDAM OS LIMITES DA CIVILIDADE.

ABRAÇO MIL.