As referências de José Marinho a Espinosa não são muito
frequentes, mas nem por isso deixam de ser significativas. No essencial, no caminho do meio que Marinho procurou
trilhar, entre a “união” e a “cisão”, Espinosa aparece-lhe como um dos polos de
referência, sempre (mais) do lado da “união”. Eis, nomeadamente, o que podemos
apreender, de forma lapidar, na seguinte passagem, em que Espinosa surge em
contraponto com Hume: “…um demasiado une, Espinosa, outro demasiado cinde,
Hume, outro finalmente, como Hegel, ilusoriamente pretende aos contrastes do
abismo conciliar.”.
De resto, como o próprio José Marinho veio posteriormente a
reconhecer, partiu ele, antes de uma “radicalização ontológica”, de “um
unitarismo muito próximo do de Espinosa”, o mesmo é dizer, de uma concepção de
“ser absoluto ou Deus” que anulava, por si só, “toda a alteração, todo o tempo
e ser do tempo, todo o múltiplo”, ou seja, em suma, a própria “cisão”,
precisamente o que veio, enfim, por via dessa “radicalização ontológica”, a
aceitar – ainda nas suas palavras: “Tudo quanto chamamos mal e queda era para
ele excluído enquanto pensador do então suposto puro ser e saber da verdade.
Era a fase em que ele negava toda a alteração, todo o tempo e ser do tempo,
todo o múltiplo (...). Depois, forçado inevitavelmente a aceitar o que negara,
o pensador procurou um termo adequado. Encontrou cisão (...).”.
Descreve Marinho essa
sua “radicalização ontológica” nestes termos: “Sem abandonar o sentido unitário
filosoficamente primordial e inabalável, aumentou até um grau inesperado o
sentido da imensa pluralidade e diversidade.”. Daí ainda, nesta esteira, estas
suas palavras: “Ora duas opostas vertentes de escoam desde o Renascimento aos
nossos dias as águas da verdade valiosa e da vida fecunda: pelo Deus que é
demasiado substância, em Espinosa, que é demasiado humano, em Pascal./ Deus é
substância, mãe e matéria, mas é preciso ver como, fugindo à analogia do ventre
da mulher e da mãe natureza. Ele é pessoa, pai e espírito, mas importa ver aqui
uma espécie de ‘quando’, fugindo à analogia do espírito humano preso ainda na
processão dual da alma e do corpo.”.
Daí ainda, enfim, estas suas referências a Espinosa que pudemos
encontrar na sua obra: “A filosofia de Hegel não nega, e isto deveria ser
evidente para todos quantos filosofam, o pensamento de Parménides. O genial
pensador (…) diz de maneira explícita na Lógica
que o seu pensamento sintético só tem sentido se se atribui toda a força de
sentido ao pensamento parmenidiano, ou, numa forma mais recente, ao pensamento
de Espinosa.”; “O pensamento de Bergson e o dos seus análogos situa-se
justamente entre o máximo da intuição de Espinosa e o mínimo da intuição de
Kant.”; “Os chamados post-kantianos, desejando, por um lado receber e manter o
que de fecundo havia na crítica de Kant, ou no seu âmago, procurando, por outro
lado, esquivar os negativos efeitos do criticismo, ligam-se a Espinosa, no qual
encontram, como é comum nos filósofos de tendência especulativa, mesmo não
unitários, uma garantia perene da prima filosofia.”.

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