quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pascoaes e o falso universalismo


No passado dia 8 de Fevereiro teve lugar, na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, a inauguração de uma exposição sobre Teixeira de Pascoaes, intitulada “Pascoaes: do Solar de Gatão ao Universo” (aberta ao público até ao dia 6 de Maio). Na ocasião, decorreu uma mesa redonda, coordenada por Sofia Carvalho, responsável pela exposição, em que intervieram Serafina Martins, António Cândido Franco, Miguel Real e eu próprio.

Como (quase) sempre acontece quando se fala da obra de Teixeira de Pascoaes, referiu-se um dos seus livros mais emblemáticos – “Arte de Ser Português” (1915) – e a suposta contradição entre esse seu livro e o seu alegado universalismo, contradição a meu ver infundada (por mais que muito difundida) e que procurei desconstruir, partindo, para tal, do filósofo José Marinho, um dos maiores hermeneutas da obra de Teixeira de Pascoaes, sobre a qual escreveu centenas de páginas, entretanto reunidas no volume “Teixeira de Pascoaes, Poeta das Origens e da Saudade” (2005).

Com efeito, para José Marinho, verdadeiramente “universal é o que tende para o uno, assumindo portanto [sublinhado nosso: portanto e não apesar disso] a responsabilidade do múltiplo em que a realidade se nos revela”, ou seja, o “universal concreto”, o “universal situado”, aquele que é “respeitoso do lugar que a mais restrita parte tem no todo, do valor que a nação, a terra, a forma de vida e o ser mais humilde devem assumir”. Não, pois, o falso universal, cego e oco, que se afirma na negação das diferenças.

Ainda nas palavras de José Marinho, esse universal que se afirma na negação das diferenças “é um ‘universal abstracto’, um universal separado por artifício da situação real e concreta do homem. O verdadeiro universal é, porém, concreto (…).”. Daí, de resto, a sua veemente denúncia do “pseudo-universalismo forjado desde a época das luzes, que comprou suspeitosamente barato nas feiras da Europa o saber e o juízo crítico”, denúncia, essa, que inúmeras vezes fez questão de reiterar – a título de exemplo: “Só se admira o universal. Mas não podemos instalar-nos nele como num molde já feito.”; “O autêntico universalismo não se imita, não se adapta e não se plagia”.

Daí, enfim, a sua expressa defesa de uma filosofia situadamente portuguesa, não fosse esta “dirigida contra o universalismo abstracto e convencional de escolásticas e enciclopedistas em que têm vivido”. Ainda nas suas palavras: “…minha interpretação arranca de um sentido da filosofia nacional para uma singularidade de pensar mais autêntica e para uma universalidade mais verdadeira, filosofia [que] se não demonstra por meio de juízos e afirmações, mas por um pensamento que tenha em si próprio o cunho da autêntica universalidade (…).”. Em suma: para Pascoaes, a “Arte de Ser Português” era (melhor: é) a nossa forma de sermos verdadeiramente universais. Melhor ainda: a Arte de Ser Lusófono…

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