segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Descolonização, a Tina Turner e o Tino de Rans


A breve memória que fiz publicar de Mário Soares provocou as mais curiosas e díspares reacções. De gente mais de “direita” (usemos esta terminologia, para simplificar), as reacções foram em geral positivas, por ter posto, alegadamente, “alguns pontos nos is” – ainda que tivesse havido quem me censurasse por ter sido demasiado indulgente com Mário Soares (ao ter sugerido uma “retractação” que nunca existiu de facto) e, sobretudo, por ter ignorado a questão dos retornados (já lá irei). Do outro lado, se houve quem tivesse considerado o texto “importante” (mensagem, por exemplo, de um membro da ala “esquerda” do Parlamento), a maioria das reacções foi negativa, pelas apreciações que fiz (e que mantenho) sobre o processo da descolonização.

E aqui chegamos à figura central da política portuguesa nestas últimas décadas: a famosa TINA (“there is no alternative”). Não deixa de ser de facto curioso que muitos daqueles que, nos últimos anos, nela (e bem) zurziram, a propósito da Troika e do seu programa da austeridade, queiram agora recuperá-la a propósito da descolonização – como se, quando se tratam de questões orçamentais, a TINA se tornasse no Tino de Rans (uma figura simpática, mas que ninguém leva realmente a sério), qual “bola colorida nas mãos de uma criança”, mas, quando se trata da descolonização, a mesma TINA se metamorfoseasse na Tina Turner, qual mulher fatal a quem (no auge da sua carreira) seria impossível dizer que não.

Da minha parte, tenho a dizer que é sempre possível dizer que não (mesmo, sem qualquer retórica, com uma arma apontada à cabeça). Por isso, não aceito a TINA – nem na versão Tino de Rans, nem na versão Tina Turner. Acrescento até o seguinte: quem, à “esquerda”, insiste na tese de que tudo o que no essencial aconteceu na descolonização era inevitável, acaba por dar razão ao imobilismo do Estado Novo, cuja justificação era precisamente essa: no contexto internacional de então, se Portugal se retirasse das colónias, a catástrofe seria inevitável. Ainda que seja um avanço a registar que já ninguém continue a qualificá-la como “exemplar” (a “verdade oficial” dos primeiros tempos). Agora, a forma catastrófica como a descolonização se processou foi apenas “inevitável”. Como sou paciente, esperarei tranquilamente o momento em que a “verdade oficial” se altere uma vez mais.

Abordemos, então, para finalizar, a questão dos “retornados”. Se em geral não a abordo, é porque procuro verbalizar um ponto de vista não estritamente português, mas lusófono. Partindo desse ponto de vista, direi o seguinte: se a questão dos retornados tivesse sido o sacrifício necessário para que a descolonização se tivesse processado de forma não catastrófica, nada teria a acrescentar (por mais pessoalmente injusto que tivesse sido esse sacrifício). O ponto é que nem isso é verdade. Quanto muito, pode dizer-se que os retornados acabaram por beneficiar Portugal, no plano cultural, social e até económico (tese, por exemplo, de Fernando Dacosta, que não contesto, no essencial). De um ponto de vista não estritamente português, mas lusófono, o balanço, porém, não pode deixar de ser outro. Porque, de facto, o que aconteceu não era inevitável nem foi, muito menos, exemplar.

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