terça-feira, 22 de novembro de 2016

MIL Polémicas: Uma visão patusca da Comunidade Lusófona...


É fatal como o destino: sempre que se aproxima a data de uma Cimeira da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, aparece sempre alguém a tentar denegri-la. Nas páginas do jornal Público, foi Diogo Queiroz de Andrade (D.Q.A.) a fazê-lo desta vez e logo em Editorial (30.10.2016).

O título do texto é por si só eloquente, no seu indisfarçado tom jocoso: “A patuscada da CPLP”. Mas centremo-nos aqui nos argumentos – desde logo no primeiro: “António Costa leva ao Brasil uma ideia que já há uns anos faz parte do imaginário do PS: ‘liberdade de residência’ para os cidadãos da CPLP, que é um maneirismo envergonhado para uma solução que na prática implica a liberdade de circulação entre cidadãos de todos os países da comunidade.”.

Generoso, D.Q.A. ainda concede que “a ideia é boa, e justa”: concordamos plenamente, ou não a defendêssemos há muito. Mas, acrescenta, “é também descabida: nunca passará no crivo dos parceiros de Schengen”. Ou seja, para D.Q.A. não deve haver política externa portuguesa para além dos ditames da União Europeia. Uma visão patusca, sem dúvida, para um país com mais de oito séculos de existência.

Depois da inevitável referência à Guiné-Equatorial, D.Q.A. procura sustentar a tese da “descaracterização da CPLP”, com o ingresso de novos países observadores associados – como se os estatutos de membros integrados e membros observadores fossem, sequer vagamente, análogos. Tudo isto para concluir que na CPLP “se calhar o que está a mais é mesmo a Língua Portuguesa”. Aqui, tem que se conceder que D.Q.A. é uma vez mais generoso, muito generoso: pois que parte do princípio que nos países de língua oficial portuguesa se fala mesmo, generalizadamente, a nossa língua…

Ainda bem que D.Q.A. não conhece, em termos percentuais, o real número de falantes de língua portuguesa em cada um dos países da CPLP – caso conhecesse, ainda lhe poderia passar pela cabeça a ideia de defender que a CPLP se deveria restringir a Portugal e ao Brasil (ou só a Portugal, seguindo o “argumento” de que no Brasil se fala outra língua que não a nossa). Na próxima cimeira da União Europeia, talvez seja de perguntar quais são realmente os países da CPLP que “passam no crivo” (o sr. Schäuble, decerto, terá opinião sobre o assunto).
 
E ainda bem que D.Q.A. não se pronuncia sobre o anunciado ingresso de Santiago de Compostela na UCCLA: União de Cidades Capitais de Língua Portuguesa, de que já faz parte (imagine-se!) Macau. Decerto, falaria igualmente de “descaracterização”. E longe vá a ideia de se alargar, nos próximos anos, a “patuscada” a outras comunidades, como a residente no Bairro Português de Malaca – uma pequena comunidade de pescadores de uma cidade da Malásia que insiste em falar “Papiá Kristang”, um dialecto onde abundam palavras do português antigo. Caso isso aconteça (longe vá o agoiro), teremos decerto um novo Editorial do jornal Público, a zelar pela pureza (e pequenez) da Comunidade Lusófona.

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