domingo, 24 de abril de 2016

Até tu, Francisco?

Os ventos continuam a não soprar de feição no espaço lusófono, neste ano de 2016. Somam-se os casos de (muita) preocupação e as (poucas) boas notícias parecem ser apenas a excepção à regra.
No Brasil, a intenção do Governo de acabar com a obrigatoriedade do ensino da literatura portuguesa parece ser até uma questão menor, face à crise política que se vive. Alenta-nos apenas a certeza de que, apesar dessa crise – que está a dividir por inteiro o país, como pudemos constatar presencialmente (em meados de Março) – o Brasil não se irá cindir. E que unido (desde logo, pela nossa língua comum) irá reencontrar o seu caminho de futuro.
Em Moçambique, o fantasma da guerra civil e da cisão ameaça ser de novo bem real. Também aí, é a nossa língua comum uma das poucas razões, senão mesmo a única razão, para continuarmos a acreditar que, apesar de todos os ventos em contrário, Moçambique manterá a sua unidade nacional.
Em Angola, se o fantasma da guerra civil e da cisão parece enterrado de vez, o panorama não é muito melhor. Para além da crise económica, precipitada pela descida abrupta do preço de petróleo, há a percepção cada vez maior de não haver ainda um verdadeiro Estado de Direito. Seja qual for o ponto de vista sobre o regime angolano, não há forma de aceitar a recente condenação de Luaty Beirão e dos seus companheiros. Passe o eufemismo jurídico, as penas foram absolutamente desproporcionadas face às acusações.
Perante tudo isso, a crise institucional que se viveu recentemente na CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) até parece uma questão menor. Apesar da solução diplomática – contra a vontade de alguns países, Portugal irá mesmo assumir, como era seu direito, o secretariado-executivo da CPLP, ainda que partilhando o mandato com São Tomé e Príncipe –, esta foi mais uma prova inequívoca de que, vinte anos após a sua criação, a CPLP ainda não atingiu a sua maioridade institucional.
E o mesmo se diga da recente decisão da Cúria Romana de abandonar a língua portuguesa, até agora uma das línguas oficiais da Congregação para a Causa dos Santos. Segundo as estatísticas que o próprio Vaticano reconhece, no mundo existem 1254 milhões de católicos, dos quais 315 milhões vivem em países onde o castelhano é a língua oficial – logo depois, vem o português, falado por 160 milhões de católicos. Sendo que a razão maior para a rejeição desta medida não deve vir sequer destes números. Mal ou bem, se a Igreja Católica se projectou globalmente, isso deveu-se desde logo à expansão marítima de Portugal. Como é, pois, possível tamanha injustiça histórica? Caso para perguntar: até tu, Francisco?
 
18 Abril, NOVA ÁGUIA 17 no Algarve - 15h30: Biblioteca Municipal de São Brás de Alportel | 18h00: Clube Farense | 21h00: Universidade Sénior de Olhão


3 comentários:


  1. Talvez seja um pouco a culpa de Portugal
    parece não desejar "valorizar" a sua história e então como se quer que os outros a valorizem ?!

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  2. Anónimo00:33:00

    Se bem julgo saber o AO90 determina que a referência escrita a Sua Santidade passa a ser feita em letra minúscula "papa".
    Congratulo a Santa Sé por esta decisão tão acertada e lamento pelos governantes de "p"ORTUGAL.
    Paulo Almeida.

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  3. Queridos Lusofonos que somos muitos apesar dos dissabores de alguns que andam por caminhos alheios à procura da galinha dos ovos d'ouro.
    Acrescento que o único Ministério que cada governo do mundo da CPLP deveria existir era o
    MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Todo o resto vinha por acréscimo.

    Um abraço fraterno
    Luisa Timóteo

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