I
Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou, - o sol! Volvei, noites de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brazido.
Noites da serra, o casebre transido…
Ó meus, olhos cismai como os velhinhos.
Extintas Primaveras evocai-as:
- Já vai florir o pomar das maceeiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias. –
Sossegai, esfriai, olhos febris.
- E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas… Doces vozes senis… -
“Na primeira publicação deste poema, em
Macau, 1897, abria o díptico de sonetos com o título geral de Paisagens de Inverno, sendo dedicado a
Alberto Osório de Castro. O segundo, que na 1ª edição de Clepsidra foi colocado separadamente e mais adiante é o que principia
Passou o Outono já… Na 3º edição de Clepsidra, o Doutor João de Castro
Osório voltou a juntá-los sob a citada epígrafe.” (António Quadros)
-
II
Passou o Outono já, já torna o frio…
- Outono do seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado…
- O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?
Ficai cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando…
Onde ides a correr, melancolias?
- E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias…
-
“Na sua primeira publicação, em 1897, como
dissemos em nota anterior, e também na 3ª edição de Clepsidra, este é o segundo soneto do díptico Paisagens de Inverno. Originalmente, era dedicado a Abel Aníbal de
Azevedo.” (António Quadros)

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