segunda-feira, 28 de abril de 2014

Companheiro Vasco

É certo que já era expectável... mas temos sempre uma esperança, por mais pequena que seja, de que o inevitável seja, pelo menos, adiado o mais possível. Vasco Graça Moura morreu, e vai fazer-nos muita falta; e não apenas no combate contra o abjecto, abominável, «aborto pornortográfico».
Também previsíveis, nestas ocasiões, são os elogios de circunstância, mais ou menos sinceros, a respeito da pessoa que partiu. É certo que há sempre uma quantidade apreciável de hipocrisia nestas manifestações de admiração póstuma. Porém, no caso deste advogado, político (secretário de Estado, deputado), poeta, ensaísta, romancista, (que desempenhou, entre outros, os cargos de) presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e do Centro Cultural de Belém, co-criador da Expo 98, a duplicidade é, tem sido, mais descarada do que o habitual.
Exemplos? Em comunicado, o actual (p)residente da república sublinhou a «marca indelével» que o agora falecido deixa na cultura e na política. Aparentemente, e infelizmente, não tão indelével de modo a que ele, que sempre teve o apoio do agora falecido, seguisse os seus conselhos no que se refere ao AO90. Pelo que, se quisesse mesmo «render homenagem» a Vasco Graça Moura, bem que Aníbal Cavaco Silva podia fazer cumprir um dos últimos e grandes objectivos do antigo director da Imprensa Nacional Casa da Moeda: cessar de imediato a (auto-)destruição da língua portuguesa. O mesmo se aplica a Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, e a Francisco José Viegas e a Jorge Barreto Xavier, anterior e actual secretário de Estado da Cultura. E ainda a Guilherme de Oliveira Martins, que permitiu que o CNC se tornasse em mais uma «coutada» dos neocolonialistas da ortografia.
Entretanto, na RTP, é a pouca vergonha do costume: hoje, no programa «Bom Dia Portugal», logo a seguir a uma reportagem sobre o óbito do tradutor de Dante, Petrarca e Shakespeare, Carla «quebrar a oposição dos portugueses ao AO» Trafaria apresentou mais uma edição da rubrica «Bom Português», em que, desta vez, se perguntava como é que se escrevia «correctamente»… «pé-de-atleta». Não faltaram os inquiridos que, quais papagaios amestrados, responderam que era… sem hífens. Um (ponta)pé no traseiro era o que eles, e a alegada «jornalista», precisavam.       
Vasco Graça Moura merecia muito mais do que isto. Ele foi, é, será, o nosso, autêntico, Companheiro Vasco. Outros provocam-nos, apenas, asco.  

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