quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ainda estamos “em tutela”

Numa das cerca de meia centena de Cartas escritas para António Telmo, escreveu Agostinho da Silva o seguinte: "Parece, no entanto, que pelo jeito com que estão tratando do assunto todo o governo e a oposição, talvez as coisas rebentem primeiro na África, com uma declaração unilateral de autonomia, à moda rodesiana; e parece que grande parte da gente em Portugal se inclina para o abandono de África; o que significará imediatamente Portugal em tutela." (Carta de 17 de Novembro de 1968, in Revista NOVA ÁGUIA, nº 13, 1º Semestre de 2014, p. 102). Quarenta e cinco anos depois, é caso para perguntar: não é como estamos? 
Decerto, Agostinho da Silva não defendia a manutenção do regime colonial – pelo contrário, denunciou bem cedo o seu esgotamento. Simplesmente, o fim do regime colonial não deveria implicar, a seu ver, o “abandono” de todos os territórios de língua portuguesa, em prol de uma aposta exclusivista na integração europeia. Dever-se-ia ter criado bem mais cedo uma verdadeira Comunidade Lusófona. Num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia já proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Escusado será dizer que, passado já mais de meio século sobre esta proposta, estamos ainda longe, muito longe, de ter cumprido este sonho. Ainda estamos “em tutela”.

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