segunda-feira, 10 de março de 2014

Extractos de Literatura Portuguesa - 1 - Teixeira de Pascoaes - O Bailado




I

 “Afinal o que é a Poesia? O desejo que certos homens têm de não morrer. Poesia, Arte, Filosofia, Ciência – mãos de náufragos agarradas a uma tábua.
Certos homens trabalham, como formigas, na obra da sua imortalidade, o que os torna ferozes entre si! Cravam os dentes no osso indestrutível e rosnam ameaçadores…
Há filósofos que negam a imortalidade da alma para imortalizarem o seu nome! – Morra a Humanidade e viva eu! Eu? Apenas o nome que me deram; uma pequena partícula sonora e fictícia do meu ser.
O homem que sonha imortalizar-se é o mais terrível dos animais! De bom grado transformaria o mundo num caos para ser o Jeová dum novo Fiat!
Aristóteles era mais amigo da Verdade que de Platão. Amicus Plato, magis amicas Veritas. Quer dizer: tu, Platão, não passas dum mero fantasista. A Verdade só me pertence a mim! A Verdade sou eu e não és tu… Eis aqui, leitor, a atitude dum amigo que sonha imortalizar-se, perante outro amigo que tem a certeza de não morrer. Uma atitude amável, pois não é?
Viva o leitor com os seus filhos. Valem mais que as nossas obras. Compre (caridade), leia (distracção) e passe ao largo dos filósofos.”


II


 “Sim. Toda a obra de arte é um protesto contra a Morte. Ela ouve e ri; mas o protesto sempre fica… Também eu, caro leitor, me atrevo a lavrar o meu protesto. É fraco e em voz obscura. A Velha nem o ouve, nem se ri! Valha-nos isso!”



Do capítulo “Sombra e Pedra”

In: Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987, p. 26.





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