Pode-se
não acreditar na “ideologia dominante”, que atravessa a meio as várias
esquerdas e direitas – ou, pelo menos, grande parte delas –, mas, que
ela existe, não tenham a menor dúvida. Uma das provas maiores da sua
existência é o massivo consenso – positivo ou negativo, conforme os
casos – relativo a certos conceitos.
Tomemos
como exemplo maior o conceito de “proteccionismo” – o maldito conceito
de “proteccionismo”. Um dos espectáculos mais hilariantes da nossa
classe político-mediática é que, mesmo quando defendem propostas
objectivamente proteccionistas, fazem sempre questão de ressalvar o
contrário.
A
sociedade, depois, faz eco deste preconceito, de forma por inteiro
acrítica. Qual mantra dos nossos tempos, é preciso sempre dizer, com a
toda a convicção, que se é “contra o proteccionismo”. Mesmo ou sobretudo
quando essa convicção é de facto acrítica, porque não se sustenta,
minimamente, em qualquer argumento. É uma pura petição de princípio ou,
se preferirem, uma “posição de fé”. É-se contra o “contra o
proteccionismo” porque sim e isso parece bastar.
O
espectáculo é tanto mais absurdo porquanto, como é cada vez mais
evidente, foi esta visão anti-proteccionista uma das causas maiores da
crise a que chegámos. Sobretudo em Portugal, onde, mais do que em
qualquer outro lugar, se fez eco desse mantra do anti-proteccionismo. De
resto, em Portugal, não só se faz questão em se ser anti-proteccionista
como em denunciar o suposto proteccionismo dos outros. Com os
resultados que estão à vista.
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