sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Foi você que pediu um referendo?

A convocação de referendos em Portugal parece estar amaldiçoada, o que é decerto estranho num regime que se diz “democrático”. Dentre todos os instrumentos democráticos de consulta popular, o referendo deveria ser o mais estimado, porque é aquele onde a vontade popular mais claramente se pode exprimir, sem mediações. 
Volta e meia, a nossa classe política acena-nos com o mil vezes prometido referendo “sobre a Europa”, mas logo se arrepende depois. Deve pensar, para si própria: “e se o povo, que é estúpido, votar contra?”. Nunca fiando… 
Já que de vez em quando é preciso convocar um referendo – até para confirmar que somos mesmo um regime “democrático” –, em vez de questões menores, como a nossa integração europeia, surgem questões tão decisivas para o nosso futuro colectivo como a questão da “co-adopção por casais homossexuais”. 
De facto, não haveria questão mais relevante a colocar este ano num referendo. Voluntária ou involuntariamente, o resultado desse eventual referendo está à vista: uma massiva abstenção, ainda maior do que em referendos anteriores. Depois, decerto, terão ainda o descaramento de nos dizer: “Não vamos, uma vez mais, convocar nenhum referendo sobre a nossa integração europeia porque, provavelmente, a abstenção será muito grande e isso fragilizará a nossa posição na Europa”. Descaramento, de facto, não lhes falta.

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