sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

"O MAR PORTUGUÊS", de Miguel Real. Para a NOVA ÁGUIA nº 11



1. - A IMPREVISIBILIDADE
A viagem marítima, se não nos ficou nos genes, incrustou-se-nos nas imagens reitoras do nosso inconsciente histórico.
Foi ela - os seus barcos, as suas armadas, as suas ondas - que nos desafiou enquanto portugueses.
Característica fundamental da viagem marítima era, outrora, no mar desconhecido, a imprevisibilidade, que atraía os portugueses.
Partir desconhecendo se o regresso era certo.
Partir sem conhecer porto de chegada.
Partir ignorando, no tempo, o futuro, e, na geografia, a forma da terra.
Dessa imprevisibilidade nasceu a primeira imagem portuguesa do mar – um penar infindável que, se consolada pela Mão de Deus, terminaria no Paraíso: o livro Navegação de São Brandão espelha o pavor e a atracção simultâneas que os portugueses possuíam do mar; se desprovida da Mão redentora, findaria no inferno do mar gelado, pavoroso.
Da imprevisibilidade se alimenta o relato paradigmático de todas as viagens marítimas: a Ilíada e o périplo inesperado dos dez penosos anos de Ulisses como paradigma literário da nossa civilização. Ítaca, por seu lado, gravou-se na literatura de todos os tempos como imagem substituta do Paraíso.
Se atentarmos no itinerário físico e existencial de Ulisses e o compararmos com outras narrativas modelares da viagem marítima, como a Eneida, de Vergílio, a Navegação de São Brandão, o Conto de Amaro ou Os Lusíadas, reconhecemos que no coração de todas estas obras reside a imprevisibilidade enquanto estado humano de absoluto inesperamento, de fortuitidade, de acaso, de percurso animado de múltiplos acidentes e peripécias que desviam o herói de atingir o seu objectivo, atrasando-o, jogando-o por caminhos e situações exteriores e por sentimentos e estados interiores que lhe são totalmente desconhecidos, penalizando-o, forçando-o a ceder ou a resistir, a recuar ou a avançar, a hesitar e a conciliar, no que foi definido pelos gregos como a famosa “manha” ou “astúcia” de Ulisses.
A Vasco da Gama, a Pedro Álvares Cabral, a D. João de Castro, a Afonso de Albuquerque, adoçou-os nas suas viagens a eterna Mão de Deus.
Entrar no mar era entrar no reino do desconhecido, que tanto assombrava como maravilhava.
Porém, nos tempos portugueses medievais e renascentistas, a imprevisibilidade da viagem não se tecia de um absoluto acaso. Diferentemente, a Mão de Deus existia por detrás dos acidentes de percurso sofridos pelo herói, constituindo-se como prova pela qual a divindade ou o Destino (a moira grega ou o fatum romano) experimentava as virtudes do herói. Ulisses, como Amaro ou Brandão, sofrem diversos tipos de tentações (é-lhes oferecido riqueza, poder, fama…), experimentam o tremor e o terror kierkegaardiano da angústia e do desespero, da solidão, sofrem, expiam, suam, vomitam todo o mal que se acolhe no seu interior, purificando-se, e, finalmente, superadas as limitações, transcendidas as provações náuticas, o herói atinge a sua realização: Ulisses reconquista a sua Ítaca, Brandão e Amaro sofrem a visão do Paraíso eterno, a Terra dos Bem-Aventurados, ou as Ilhas Afortunadas.
Se seguirmos a lição dos clássicos, não há literatura de viagem – sobretudo de viagem marítima - que não seja tecida destes cinco constituintes: imprevisibilidade, terror do inesperado, provação/tentação, sofrimento/expiação e visão transcendente.
Um literatura de viagens desprovidas destes cinco elementos constituintes transfigura-se num relato, um diário de viagem, um relatório técnico, como as cartas ânuas dos jesuítas ou as descrições de lugares exóticos, torna-se uma literatura de tipo historiográfico, como o é a maioria dos livros de viagens da nossa Expansão Ultramarina. Diferentemente, Os Lusíadas ou Peregrinação constituem-se como a nossa mais perfeita narrativa de viagens.

(excerto)

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