Causou, uma vez mais, brado a
enésima declaração das autoridades alemãs, segundo as quais “a Alemanha não
aceita mais financiamento a países sem fortes condições e perda de soberania”.
É extraordinário que mesmo
algumas vozes assumidamente “federalistas” reajam com tanta indignação com a
perspectiva de mais “perda de soberania”. Extraordinário mas não surpreendente –
é, de resto, por isso, que em Portugal é impossível qualquer debate público
claro e consequente. Qualquer debate se transforma, mais cedo ou mais tarde,
num jogo de sombras…
O debate em torno do federalismo
europeu é um excelente exemplo disso. Grande parte da nossa classe mediática
(ou seja, da nossa classe política e jornalística) assume-se, cada vez mais,
como “federalista”. O argumentário, qual mantra, é sempre o mesmo: “só o
federalismo pode salvar a Europa e Portugal”.
Não vamos agora discutir essa
posição – já por várias vezes defendemos que, mesmo admitindo que o federalismo
fosse desejável, ele não é de todo possível. A Europa é demasiado diversa para
ter um futuro político unificado a esse ponto. Essa diversidade é, de resto, a
nosso ver, a nossa maior riqueza. Talvez na Idade Média – em que, para além de
tudo o mais, havia uma mesma língua dominante e uma mesma religião hegemónica –
isso tivesse sido possível. No século XXI, não vale a pena alimentar mais essa
ilusão.
Mas para quem ainda a alimenta,
exige-se o mínimo de coerência. Não se pode defender ao mesmo tempo o
federalismo e ser contra as consequências necessárias de todo o processo
federalista. Há, decerto, muitos modelos – mas não há nenhum em que não ocorra “perda
de soberania”. Por mais que se deseje sol na eira e chuva no nabal, não há
milagres. É pois tempo de falarmos de forma clara e consequente. Até porque
esse eventual passo só será possível com um Referendo: o tal Referendo sobre a
Europa tantas vezes prometido.
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