sábado, 27 de outubro de 2012

Ouvide os rios (canto esperançado para um tempo de agonia)

            “Só os poetas deveriam ocupar-se dos líquidos”, dizia Novalis. E é bem certo no caso do nosso país, onde Rosalia ouvia o rumor das fontes que só a nós nos dão falas de amor. O rio, a chuva antiga caída como dádiva imprevista, transmuta-se em canção no coração comovido do segrel evocado por Avilês de Taramancos, nessa idade em que “vinham os rios na crescida todos de rosas a fulgir”. “Era o fluir do cântico”.
             Mas quem pode contar a história da Galiza sem sentir a sua descontinuidade, os seus dolorosos inacabamentos? Este nosso ser que parece estar em perpétuo recomeço, onde a agrilhoada sombra do Prometeu luminoso vagueia nos versos de Celso Emílio:
            “Há que começar:
            pelos séculos dos séculos é sabido
            que há que começar”.
            Quem vive mais duma vida, mais duma vez tem de morrer. E na nossa morte repetida a Galiza-Penélope envolve-se nos seus lençóis milenários para ouvir a chuva. “Vendo e ouvindo o rio/ passa o tempo sem senti-lo”, escrevia Novoneira desde a sua montanha mágica. Ouvir em sonhos, enquanto os rios dormem e esperam o homem novo que nasce da sua matriz líquida, como nos santuários que resistem desde o além dos séculos. O “Rio de sonho e tempo” de Ernesto Guerra da Cal, imagem da nossa peregrinação na história, como bem soube ver Outeiro Pedraio no seu limiar, é o paraíso inalienável da “saudade líquida” do exilado a desabrochar em versos, cosmos descoberto na fluidez das águas que nos esperam nos “espelhos desabitados”. “Esta permanência que nos leva como um rio no tempo até a vitória”, a idade dos poetas, dos homens nascidos para criar, que em versos proféticos cantou Pondal.
            Hoje volto da Galiza perguntando-me onde é que está a salvação para o nosso reino alienado e explorado até a exaustão. Verifico com tristeza que já não há recanto do país que fuja à violência da propaganda que fez do imperativo o seu tempo e declarou inimigos aos poetas. Vejo uma nova torre babélica que esmaga as nossas vidas e encerra a nossa liberdade em hierarquias que nos escravizam e quebram ancestrais irmandades. E buscando espaços para essa vida que se agita em tantos de nós esforçando-se por ser estrela na terra, eu, com o poeta de Taramancos, proclamo como rumor de fonte amorosa entre tanto barulho que nos ensurdece o coração: “Ouvide os rios”. Assim sentireis essa outra Galiza em que “ainda é nova a terra”, em que “passam os milénios como as horas/ e tudo está no cântico primeiro”.

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