sexta-feira, 31 de agosto de 2012

De Agostinho: "Spinoza é ainda um filósofo do futuro"


Se, porém, havia razão e a fé que se abrigam no íntimo do homem, faltava o mundo que o circunda; e o mundo chegou com os descobrimentos portugueses e espanhóis, um mundo como nunca o tinham sonhado os filósofos antigos e os teólogos medievais: eram só factos o que traziam os navegadores, e os factos abriam brechas irreparáveis no edifício eclesiástico. É a segunda grande crise do pensamento ocidental: novamente aparecem os cépticos e os investigadores de minúcias e os que simplesmente descrevem, ou estão os místicos em que a religiosidade é apenas uma forma de fugirem aos problemas que a vida levanta à sua volta; os medievalistas defendem as suas posições com o ardor com que se tinham batido outrora os pagãos do tempo de Celso; mas estes lutavam pela sobrevivência da razão, ao passo que os escolásticos batalham pela sobrevivência da fé; a razão não está em perigo sério: um pouco mais tarde fará bom pacto com a realidade por intermédio de Bacon e Descartes e assegurará inteiramente a sua posição com Leibniz e Kant: para a fé abre-se uma época de apagamento; apenas na Espanha a mística floresce, ausente, porém, da razão e do mundo físico, divorciada da crítica. Só um peninsular também, mas educado em pleno centro de reflexão intelectual, pôde unir todos os elementos que pareciam discordes por sua própria natureza: a filosofia de Spinoza vai para além do seu tempo e, mesmo para nós, Spinoza é ainda um filósofo do futuro.[1]


[1] “Filosofia Nova”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 16/02/1947.

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