Se, porém,
havia razão e a fé que se abrigam no íntimo do homem, faltava o mundo que o
circunda; e o mundo chegou com os descobrimentos portugueses e espanhóis, um
mundo como nunca o tinham sonhado os filósofos antigos e os teólogos medievais:
eram só factos o que traziam os navegadores, e os factos abriam brechas
irreparáveis no edifício eclesiástico. É a segunda grande crise do pensamento
ocidental: novamente aparecem os cépticos e os investigadores de minúcias e os
que simplesmente descrevem, ou estão os místicos em que a religiosidade é
apenas uma forma de fugirem aos problemas que a vida levanta à sua volta; os
medievalistas defendem as suas posições com o ardor com que se tinham batido
outrora os pagãos do tempo de Celso; mas estes lutavam pela sobrevivência da
razão, ao passo que os escolásticos batalham pela sobrevivência da fé; a razão
não está em perigo sério: um pouco mais tarde fará bom pacto com a realidade
por intermédio de Bacon e Descartes e assegurará inteiramente a sua posição com
Leibniz e Kant: para a fé abre-se uma época de apagamento; apenas na Espanha a
mística floresce, ausente, porém, da razão e do mundo físico, divorciada da
crítica. Só um peninsular também, mas educado em pleno centro de reflexão
intelectual, pôde unir todos os elementos que pareciam discordes por sua
própria natureza: a filosofia de Spinoza vai para além do seu tempo e, mesmo
para nós, Spinoza é ainda um filósofo do futuro.[1]

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