Como se sabe, a Rússia é um país
materialista, tendo, quanto a isso, o mérito de não fazer segredo nenhum de sua
doutrina; quando se diz que a Rússia é materialista o que se quer realmente
significar é que é materialista o seu governo e, como nenhum governo se
sustenta sem que seja o representante de um determinado grupo por um motivo ou
outro detentor do poder, que é igualmente materialista o grupo russo, mais ou
menos numeroso, não importa, que apoia e orienta o governo. Quanto ao povo
russo, já a questão é mais difícil de decidir, parecendo, no entanto, que não é
muito de aceitar que em poucos anos se tenham completamente desfeito o espírito
religioso do russo e o seu pendor místico. Sabemos que templos de vários
confissões são regularmente frequentados, o que significa, por um lado, que a fé
religiosa permanece viva e que, por outro lado, os religiosos russos, que sabem
que não agrada aos poderosos a manifestação da sua crença, são realmente
sinceros e prontos a dar testemunho, mesmo em circunstâncias adversas. E
significa outra coisa ainda: que quem deseja ir a templos vai a templos, mas
que se tem a certeza de que ninguém o faz por medo ou para agradar aos patrões.
O materialismo russo pode ter, como tem, várias desvantagens: mas tem a grandíssima
vantagem de ter acabado, nos domínios religiosos, com os aproveitadores e os
hipócritas.
Por minha parte, não creio que o materialismo tenha penetrado
profundamente no povo russo (...).
“Espiritualismo ocidental”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 12/07/1958.

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