"é
impossível, em vida natural, limitar um aumento de população, embora os nossos
costumes sexuais sejam também, ao contrário do que parece, um estádio de
civilização. Um aumento de população traz como consequência imediata uma
diminuição das áreas disponíveis, e por conseguinte a carência. Perante a carência,
duas atitudes são evidentemente possíveis: a de a ela se resignar, morrendo, e é,
por exemplo, o que acontece com animais de fácil reprodução abandonados a si próprios
num espaço confinado; ou de se bater procurando meios de fabricação e de
armazenamento. Foi esta última solução que adoptou o homem primitivo. Daí o
sedentarismo; a propriedade colectiva ou particular, em que a primeira forma
apenas atenua os males fatais que vêm de possuir e apenas permite formas mais
amplas de técnica; todas as características sociais de um legalismo estatal;
dum poder absoluto, ou quase, do pai; e de cultos religiosos, de que é tipo o
romano, em que se afirma a disciplina social.
Quem principia uma batalha deve levá-la até ao fim. Nós, na realidade,
herdámos uma batalha; mas temos na mesma que a levar até o fim. Isto é, até
podermos considerar que o grupo humano se libertou daquilo a que poderíamos
chamar as suas limitações de área. Temos que levar as técnicas às suas últimas
consequências, porquanto só as técnicas poderão assegurar a nossa sobrevivência
criando os recursos que se não encontram na natureza. Quaisquer que sejam os
riscos que possamos enfrentar, e que são os mesmos de uma guerra, temos de
manter a disciplina social, e de aproveitar as ciências e as máquinas ao máximo
que elas possam produzir (...)".
“Duas idades de ouro”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 14/08/1955.

Sem comentários:
Enviar um comentário
CARO/A VISITANTE, CONTRIBUA NESTA DEMANDA. ACEITAREMOS TODOS OS COMENTÁRIOS, EXCEPTO
OS QUE EXCEDAM OS LIMITES DA CIVILIDADE.
ABRAÇO MIL.