De
vez em quando se fica muito satisfeito quando se verifica estar-se cultivando
qualquer ramo ou corrente de filosofia que de algum modo corresponde a
movimento surgido e desenvolvido no estrangeiro; quando nos atinge a última
espuma de vaga surgida bem ao largo, já nos parece que temos, excelentemente,
cumprido o nosso dever e o nosso gosto de filosofar; somos vítimas de moda ou
somos inconscientes de dependência intelectual daqueles meios que supomos mais
cultos do que o nosso: mas tudo se passa como se nada mais houvesse a fazer;
como se eternamente nos competisse ir a reboque de correntes estrangeiras. Aqui,
como em muitos outros pontos, o mal tem sido o de ir atrás do que aparece vindo
de fora; o que, de certo modo, procede de uma ignorância ou de uma desvalorização
de tudo quanto a tradição nos legou.
É
de facto curiosa a ideia com que se sai de uma curso de filosofia, entre nós ou
em Portugal, quanto ao que tem sido a actividade filosófica em língua
portuguesa. Falam-nos de gregos e de franceses, de ingleses e de alemães, e,
quando muito, se citam os que em âmbito nacional seguiram ou divulgaram as
correntes estrangeiras, na maior parte dos vezes sem que se tome sequer o
trabalho de pôr em relevo o que pode ter havido de original em certos
pormenores de pensamento ou, mais importante, no ambiente geral em que a
importação se desenvolveu; as cadeiras de história da filosofia são-nos quase,
exclusivamente, de história da filosofia europeia, pondo aqui a América do
Norte como um desenvolvimento da Europa; a pensadores nossos nem se alude; e
nem, por outro lado, se levanta o problema da possibilidade filosófica de nossa
gente.
Por aqui se deveria, creio eu, principiar (...).

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