quarta-feira, 15 de agosto de 2012

DA MANIPULAÇÃO MEDALHÍSTICA: Carta enviada ao "Público"


Leitor diário do jornal “Público”, cada vez mais admiro o seu afã europeísta. Não que o partilhe, longe disso. Mas sempre admirei aqueles que lutam por causas perdidas…
Vem isto a propósito da cobertura dos Jogos Olímpicos feita pelo “Público”. Começou, logo na primeira semana, por dar destaque (de primeira página!) a uma vitória inexpressiva (no cômputo geral) da selecção francesa numa prova de natação em estafetas e, pasme-se, de um nadador francês (toujours la France…) sobre um nadador brasileiro, na prova dos 50 m. Mas até aqui compreendo: dado que “a lusofonia não existe” (cf. Nuno Pacheco, Director-Adjunto, 12.08), é perfeitamente natural que o “Público” se sinta afectivamente mais próximo da França do que do Brasil.
O ápice de tão apaixonada cobertura veio, porém, no fim, em jeito de balanço - na edição de 14 de Agosto, destacava-se, de novo em primeira página: “Europa foi a maior potência desportiva dos Jogos Olímpicos: uma selecção da União Europeia teria conquistado 395 medalhas, contra 104 dos Estados Unidos e 88 da China”. A “notícia” é tão grosseiramente manipuladora que chega a ser constrangedor desconstrui-la: desde logo, se a União Europeia tivesse concorrido “como uma nação”, teria, quer nas provas individuais, que, sobretudo, nas provas colectivas, muito menos medalhas. Apenas um exemplo, de um desporto que cheguei a praticar: polo aquático. As três selecções medalhadas foram todas europeias. Se tivesse havido uma selecção europeia, esta teria ganho apenas uma medalha (e até se correria o risco dos Estados Unidos e/ou a China ganharem mais uma…).
Reitero: compreendo o afã europeísta do “Público”, sobretudo nestes tempos em que a União Europeia se revela cada vez mais uma ilusão, para não dizer uma farsa. Como gosta de repetir o grande ideólogo do nosso europeísmo caseiro, Mário Soares: “o que faz falta é um patriotismo europeu”. Sabendo-se que, nestes tempos, o desporto é o espaço em que, sem pesos na consciência, mais se pode promover o “patriotismo”, nada melhor do que usar os Jogos Olímpicos para procurar criar esse “patriotismo europeu”.
Decerto, não valerá a pena explicar que essa é uma tarefa condenada ao fracasso. O federalismo europeu, de que agora tanto se fala, numa última “fuga para a frente”, não é de todo possível (nessa medida, ocioso será discutir se seria desejável ou não). Por mais manipulações medalhísticas que se façam…

Renato Epifânio

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