quinta-feira, 26 de julho de 2012

De Agostinho da Silva: sobre o Protestantismo e a Modernidade


“Efectivamente, como já se tem dito e demonstrado à saciedade, foi o protestantismo que possibilitou a estruturação ideológica do capitalismo na sua forma pós-renascentista; ao contrário do que se afirma em muitos dos campos mais directamente interessados no problema, os homens não marcham senão por ideias e nenhuma necessidade de carácter material lhes parece lícita senão quando a sua legalidade lhes foi garantida por uma qualquer espécie de metafísica; ora, o protestantismo, nas suas várias correspondentes, fornecia metafísica, e a mais poderosa das metafísicas, a metafísica de carácter teológico, mais que bastante para fundamentar e justificar as três linhas básicas do novo ciclo de civilização: a ciência desprendida de qualquer espécie de implicação de fraternidade ou de moral; a nação como um fragmento lícito do Santo Império; finalmente, o juro liberto de toda a mancha de pecado.
É seguro, e só a indispensável força de choque inerente a todo o movimento revolucionário pode pretender o oposto, que a junção dos três princípios fez que a humanidade progredisse nestes três ou quatro séculos, sob o ponto de vista material, sob o aspecto de organização de vida física na terra, muito mais do que em todo o restante da sua magnífica aventura. Por este lado, a nossa dívida de gratidão a todos os que participaram do movimento é das que se podem considerar inapagáveis; de resto, toda a nossa dívida ao passado só é excedida em grandeza por aquilo que devemos ao futuro; ora, os homens que deram impulso decisivo à ciência moderna, à técnica, à indústria, são estruturalmente, qualquer que seja a sua confissão religiosa, de carácter nitidamente protestante.”[1]

(excerto)

[1] “Três Fins”, in O Estado de São Paulo, São Paulo, 8 de Maio de 1955

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