
Vergílio Ferreira foi um escritor português de grande craveira que se vai perdendo nos escaparates do esquecimento. Soube bem vê-lo aqui lembrado por Renato Epifânio, em dia de aniversário do seu nascimento. A sua escrita vem de dentro, arranha os fundamentos da sua formação cristã, questiona o Homem em todas as vertentes, de um modo a um tempo simples e profundo: «pensava em aumentar a humanidade sem ser na quantidade dela. Sem ser no acrescentamento da espécie. É-se mais um homem com quê? Com mais um estômago e mais tripas e aquilo com que se fabrica isto tudo e está mais abaixo? Em que é que fui acrescento da humanidade no meu corpo já fraccionado?»
Foi galardoado com o Prémio Camões quatro anos antes de sua morte, ocorrida em 1996.
Segue-se mais um excerto de «Em Nome da Terra», provavelmente um dos seus títulos menos conhecidos.
«E vão sendo horas enfim de descermos ao rio. Amanhã talvez? Hoje. Um dia. Estará uma noite quente, caminharemos de mãos dadas. O anjo não virá, que teria lá que fazer? vamos sós. Não terei medo da tua presença com toda a sua força de me fazer ajoelhar. Olharei o teu corpo na sua transparência incorruptível. Sofrerei em mim a descarga do universo e não gritarei o teu nome. Porque estará em mim e eu hei-de sabê-lo. A areia brilhará de uma luz pálida, pisá-la-emos devagar a um impulso fortíssimo e lento. Estaremos nus desde o início, sem vergonha anterior. Nudez primitiva, não a saberemos. Porque será uma nudez para antes dos deuses nascerem. Então mergulharemos nas águas do rio e deitar-nos-emos na areia. E olharemos o céu limpo e sem estrelas. E acharemos perfeitamente natural, porque a iluminação estará em nós. Erguer-nos-emos por fim e eu baixar-me-ei ao rio e trarei água na concha das mãos. E derramá-la-ei imensamente e devagar sobre a tua cabeça. E direi para toda a história futura, na eternidade de nós
– Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu dirás está bem.»
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