segunda-feira, 8 de março de 2010

Lira Insubmissa, Carta


The King Goes Naked, Paulo Madeira, 2005



Décimo Fragmento

62 - A sombria nuvem humana serve o relâmpago. Assim como o primordial fogo grego sempre existiu, e há-de existir, o super-homem não é mais uma profecia do que um relato do passado e do presente.

63 - O relâmpago serve o simples alívio das tensões da sombria nuvem humana.

64 - O super-homem, como a arte, a anti-arte, esta lira, e todos os meios de denúncia ao sistema, à alienação, a todas as coisas aparentemente condenáveis, servem essa mesma roldana com a função descompressora (são também necessárias as nossas notas para que esta melodia se propague). Esta é a função, também, de toda e qualquer contra-cultura. A minha lira é mais perversa do que a simples aderência ao consumo. A minha lira mistifica o consumo e dá-lhe um significado central em todas as questões. Que ninguém me pague por ela, mostra no músico a crença dos mártires na sua instituição. A sociedade é o próprio mito da sociedade.

65 - A esse propósito, observem-se também as férias, que, enquanto são uma parte menor do tempo de trabalho, não permitem que o tempo livre se liberte e abandone a condição de propriedade exclusiva de quem o concede. Libertam apenas tensão suficiente para impedir uma revolta prisional.

66 - A contra-cultura (?), pode contra-argumentar o leitor, conseguiu alguns feitos. São feitos sem efeitos. Por exemplo, a Igreja perdeu o seu fascínio. Mas observe-se os ginásios, onde se cultua com uma igual variedade de rituais e disciplinas ascéticas. Como segundo exemplo, profundamente ligado ao primeiro, a sexualidade deixou, quase, de possuir tabu. Por isso substituiu-se o tabu pelo design, uma outra forma de evitar (abstrair) o único agente que (nos) é realmente rebelde e capacitado.


André Consciência

3 comentários:

  1. Olha, o Cyrano de Bergerac! LOL
    (A exaltar o Dia da Mulher, e, sem dúvida, contribuirá para o aumento das visitas ao blogue JAJAJAJAJA!!!)

    O Agostinho teria gostado de te conhecer. E de ler este texto.

    Abraço!

    ResponderEliminar
  2. No sentido mais rigoroso da expressão, neste blog a arte é um caso à parte.

    Abraço, André.

    ResponderEliminar

CARO/A VISITANTE, CONTRIBUA NESTA DEMANDA. ACEITAREMOS TODOS OS COMENTÁRIOS, EXCEPTO
OS QUE EXCEDAM OS LIMITES DA CIVILIDADE.

ABRAÇO MIL.