terça-feira, 2 de março de 2010

Favela & Cobra Norato




FAVELA

Meio-dia

O morro coxo cochila
O sol resvala devagarzinho pela rua
torcida como uma costela

Aquela casa de janelas com dor-de-dente
amarrou um coqueiro do lado.

Um pé de meia faz exercícios no arame.

Vizinha da frente grita no quintal:
– João! Ó João!

Bananeira botou as tetas do lado de fora
Mamoeiros estão de papo inchado

Negra acocorou-se a um canto do terreiro
Pôs as galinhas em escândalo

Lá embaixo
passa um trem de subúrbio riscando fumaça

À porta da venda
negro bocejou como um túnel.


COBRA NORATO, XXIII

Noite grande…

Apicum da beira d’água está gostoso.

Hoje tem céu que não acaba mais
esticado até aquele fundo.

Bom se eu pudesse empurrar horizontes
ver terras dissolvidas em silêncios
onde talvez ande a filha da rainha Luzia
… entre florestas decotadas
e noites como a de hoje
enfeitada de azul e lua com cachos de estrelas.

– Estou de mussangulá.

Dentro do mato de árvores niqueladas
Silêncio fez tincuán.

Grilos dão aviso.
Respondem lá adiante.

Sapos com dor de garganta estudam em voz alta.

Céu parece uma geometria em ponto grande.

– Há tanta coisa que a gente não entende, compadre.
– O que é que haverá lá atrás das estrelas?


Raul Bopp

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1 comentário:

  1. Já entrei numa Favela (Cantagalo, Rio de Janeiro).

    Nem é particular proeza lá entrar. Saír pelo próprio pé, sim, é façanha.

    A menos que se esteja protegido (e não me refiro ao Cristo).

    Tomei essa experiência como uma transcendência terrena. Por invadir o indevido, o interdito.

    Abraço!

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