quarta-feira, 31 de março de 2010

Agência de rating, 3

Com a devida vénia, transcrevo o comentário de um leitor, que se identifica como Alberto Caeiro, e que se lê nesta notícia de hoje do Público - a notícia em si não é muito interessante, apenas fala, mais uma vez e mais uma vez discretamente, do próximo colapso económico da Irlanda.

"Foi o "capitalismo selvagem" e burguesia que o salvaram da escravidão dos campos, e lhe deram a qualidade de vida que usufrui, abarrotadinha de serviços púbicos para lhe permitir uma vida longa com poucos sobressaltos. Se assim não fosse morreria aos 50 numa usina de aço, ou a guardar gado num Sovkoze. Não se esqueça que a burguesia necessita de si com dinheiro no bolso para consumir, enquanto num sistema alternativo o sr. seria uma peça substituível numa superestrutura colectiva."

O leitor interessado constatará que isto é uma resposta a comentário anterior; sociologicamente, estes debates são interessantíssimos sempre, por revelarem não apenas a capacidade argumentativa de uma amostragem aleatória da população, após décadas de "escolarização obrigatória", mas o modo curioso e talvez imprevisto como as grandes ideologias do século XX penetraram no discurso 'político' comum.

Baralhar e dar de novo a partir daqui - ou melhor, actualizar todos esses discursos a uma sociedade em que Sovkoses, usinas de aço e guardadores de gado estão quase inevitavelmente submersos na realidade de uma impensada convergência entre lumpen-proletariado e lumpen-burguesia - eis o que poderia ser um interessante ponto de partida para uma reflexão séria sobre essa palavra labiríntica que cada vez mais é a lusofonia.

Talvez valesse a pena também recordar que a 'escravidão dos campos' foi inicialmente salvífica também - para os caçadores-recolectores do neolítico. Mas a ideia do longo prazo já não nos diz nada, e calo-me.

6 comentários:

  1. Tu, que és de nós todos o que mais sabe dos monstros da economia - mete-te mas é a reflectir nestas novas nacionalizações da Banca, e de qual o seu significado político.

    Dou-te umas pistas (vou passear, que esta merda da blogosfera é só palermas e um deles já me deu gases):

    Mandam bocas os liberais - mas quando estouram já gostam do Estado...

    E não lhes falta motivos - porque o mesmo Estado que lhes entrega a economia é o mesmo que lixa o dinheiro dos contribuintes a salvar privados...

    Este sistema como se chama?
    Capitalismo, não é!

    Abraço!

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  2. Não sei nada de economia, e assim espero ficar :)

    Klatuu, o comentário deste 'Alberto Caeiro' é exactamente engraçado porque parte do argumento é dos 'liberais', mas mistura-se uma certa sociologia 'classista' que vem do Marx, etc... tudo aparentemente senso comum, mas carregado de ideologia como não pode deixar de ser - a neutralidade é rara neste mundo.

    Quanto a este Estado-salvador de capitalistas, encaixa bem num certo tipo de análise - também marxista mas principalmente da 'crítica de esquerda' ao capitalismo de Estado soviético - que chama a atenção para que o Estado é sempre 'capturado' por uma classe, no caso a dos detentores do capital...

    A meu ver, no curto prazo os governos têm razão -a falência em série dos bancos iria ter consequências terríveis. Na 'direita' americana, há muito quem defenda que os governos deviam forçar essa falência - e tomar depois conta do sistema financeiro.

    Mas pelo que percebo há quem pense que os esforços dos governos serão insuficientes, e que mais vale que o mal venha já do que mais tarde e com mais força...

    No conjunto, o mesmo problema que com as alterações climáticas - ou não são verdade e não há problema ou, se forem, excedem a capacidade de resposta de um governo individual, por forte que seja. O que nos levaria à questão da democracia, que é a central...

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  3. Monta-te na minha ideia de que o capitalismo morreu, tenta descobrir que mutação do cadáver é esta, e diz-me qualquer coisa - «ver» não é o mesmo que tornar legível para os outros.

    O capitalismo morreu - porquê? Tenta traduzir-me isto...

    Abraço!

    P. S. O que é central: é estarmos ainda a tentar lavar esta merda toda sem sair da democracia.

    Transnacionalismo - democracia forte - morte do capitalismo. Concentra-te nisto como se fosse um mantra... :)

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  4. ... A direita americana a propor uma medida «bolchevique» - não te cheira a cadáver?...

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  5. Eu comecei a reparar no cheiro há 4 anos - a morte foi acontecendo porque, ao defender-se do Bloco de Leste e do marxismo, o capitalismo foi forçado a mudar... O que há agora é uma espécie de monstro híbrido: um «capitalismo social». Este monstro é um Lázaro...

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  6. :) os próximos capítulos vão ser emocionantes...

    Mas depois alguém que faça os slogans. Apenas sei falar à moda dos bardos - uma longa saga.

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