sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Senhor dos Navegantes IV


+++, Ruela, 2010


[...] Ofereci-lhe outro cigarro. Ele recusou-o com um gesto.
– São horas de nos irmos embora – disse, empregando o plural, como se estivesse certo de que eu partiria, com ele, do Senhor dos Navegantes. Realmente, eu deixara de o temer.
Atravessámos o adro. Ao passarmos junto do local que ele me dissera haver sido um cemitério romano, vi-o deter-se. Os seus olhos pareciam buscar, sob as plantas silvestres, um determinado sítio. Encontrou-o, decerto, porque vergando a cabeça, gritou para dentro da terra:
– Cá estou! Ouves? Cá estou e vou continuar a lutar!


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998

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