quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Videovigilância aumentou dez vezes em cinco anos

De 630 autorizações para instalação de sistemas em 2004, passámos para mais de 6500 no ano passado. Aumento alimentado por razões de segurança e que preocupa as autoridades.

No ano passado houve 6524 pedidos de autorização para instalar sistemas de videovigilância - dez vezes mais do que há cinco anos, quando foram 630. Aliás, o número de câmaras a observar os portugueses cresceu exponencialmente: dos 67 pedidos que a Comissão de Protecção de Dados (CNPD) recebeu em 2000 passou-se rapidamente para os 6524 de 2009, numa década marcada pelo medo do terrorismo.

Este é um dos alertas da comissão a propósito no Dia Europeu da Protecção de Dados, que se celebra hoje: em nome da segurança assistimos ao reforço da vigilância, tratando todos os cidadãos como suspeitos. "No geral, todos os pedidos são autorizados, mas muitas vezes com limitações", diz Clara Guerra, porta-voz da comissão. Os locais onde se põem as câmaras, por exemplo, são muitas vezes alterados. E num condomínio, a CNPD exige que todos os residentes estejam de acordo.

Mesmo assim, muitas das queixas recebidas em 2009 são sobre videovigilância, diz. No total, foram abertos 724 processos de contra-ordenação e aplicadas 260 multas a 244 entidades diferentes.

Para Isabel Cruz, secretária da CNPD, o aumento explica-se porque estes sistemas tornaram-se muito baratos, porque há uma grande pressão dos vendedores e um crescente sentimento de insegurança, que faz as pessoas cederem. Por isso, bancos, bombas de gasolina, lojas, condomínios fechados e empresas aderem cada vez mais. Se as câmaras cumprem ou não a sua missão é outra conversa, continua. "Infelizmente, o que se tem verificado é que em muitos casos as imagens não ajudam muito até porque as pessoas não têm cuidado na manutenção do equipamento", explica.

Vigilância térmica

A recolha de dados biométricos já é um tema mais sensível. Em Novembro, a comissão recusou um pedido de uma empresa que pretendia instalar um sensor de temperatura na câmara da entrada, para ver se os empregados tinham febre. A empresa argumentava que o objectivo era proteger os seus funcionários, em plena pandemia de gripe A. No entanto, a CNPD considerou que este é um "dado relativo à saúde" e, por isso, informação sensível. Mesmo face ao cenário de pandemia, foi considerado "excessivo, desproporcionado e com grande potencialidade de intromissão na esfera de vida privada" instalar este tipo de sistema, dada a quantidade de situações que podem originar febre sem ser gripe - nas mulheres, por exemplo, é comum verificar-se um aumento da temperatura no período de ovulação.

Este caso exemplifica bem os desafios actuais da protecção de dados, diz Clara Guerra. A evolução tecnológica permite um nível de controlo de que muitas vezes os cidadãos não têm sequer consciência. E acabam por abdicar dos seus direitos fundamentais, por causa do medo. Um "cenário inquietante" que a comissão foi discutir com alguns deputados.

Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1481092

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