terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sobre a Galiza

"percorri bastante a Galiza, dei-me com muita gente, fiquei a entender bem qual seria a possibilidade daquele canto da Península e continuo hoje exactamente com a mesma impressão, que é uma coisa fundamental para que a Península se transforme, é o único lugar interessado ao mesmo tem­po, realmente interessado ao mesmo tempo, dum lado na Espanha e do outro lado em Portugal. Eles falam realmente um português arcaico em relação ao nosso português actual; o espanhol é o espanhol actual deles; - são de facto a única região da Espanha bilingue e bilingue com interesse para Portugal, que eles falam de facto português. E encontrei muita gente, ainda era altura do Franco, e en­contrei muita gente que ansiava por poder falar galego e escrever galego à vontade sem licença nenhuma de Madrid, por exemplo um padre, um cónego da Sé da Corunha, homem extraordinário, excelente, que vinha muitas vezes ao Porto e ficava na Rua de Santa Catarina, que era um lugar muito frequentado - era um encontro de ruas e duma praça importante - só para ouvir as pessoas passar e falar a língua dele com toda a liberdade. Como havia outros amigos, uma professora, uma professora do ensino primário e um pouco de secundário, pessoa extraordinária que tinha montado um colégio muito moderno e quando vinha a Portugal com o marido iam sempre para Aljubarrota, prestar homenagem aos portugueses que tinham derrotado os castelhanos. Quer dizer, eles entendiam uma coisa extremamente importante que até hoje os Portugueses não entendem... O meu amigo vai ver agora quando houver as comemorações do 1º de De­zembro, como toda a gente publica artigos, lança discursos, faz manifestações, porque se ganhou uma batalha contra uma coisa que eles chamam os espanhóis. Estes amigos galegos sabiam perfei­tamente que não foi realmente contra os espanhóis, foi contra os castelhanos, o rei só nominalmente era rei de Espanha e havia re­giões da Espanha que lhe escapavam e não estavam sob o domínio dele. A batalha foi realmente de portugueses contra os castelhanos e era isso que os meus amigos vinham saudar, cumprimentar em Aljubarrota e agradecer o resultado daquela batalha."

Agostinho da Silva, inédito.

Consulte outros textos on-line em:
http://www.agostinhodasilva.pt/

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