Na Patagónia, Bruce Chatwin
Bruce Chatwin 13 Maio1940, Sheffield, Inglaterra - 18 Janeiro 1989, Nice, França.
"Quando a mãe de Miss Starling morreu, ela vendeu a casa e a mobília. Comprou uma mala de viagem ligeira e desembaraçou-se da roupa que nunca usaria. Fez a mala e andou às voltas pela vizinhança a ver se era muito pesada. Miss Starling não confiava nos bagageiros. Decidiu, por fim, levar consigo um vestido de noite.
- Nunca se sabe onde se vai parar - disse.
Há seis anos que não parava e tinha a intenção de continuar a viajar até não aguentar mais. Presentemente, os seus companheiros eram os arbustos de jardim. Sabia quando e onde davam flor. Nunca andava de avião e ganhava a vida dando lições de inglês ou efectuando trabalhos de jardinagem.
Tinha visto o veld sul-africano chamejante de flores; e os lilases e florestas de medronheiros do Oregon; os bosques de pinheiros da Colúmbia Britânica; e a flora miraculosamente preservada da Austrália Ocidental, isolada pelo deserto e pelo mar. Os australianos davam nomes muitos engraçados às palntas: pata-de-canguru, planta-de-dinossauro, planta-erva-gerardtowen e rapaz-preto-billy.
Vira também as cerejeiras e os jardins zen de Quioto, e os tons do Outono em Hocaido. Adorava o Japão e os Japoneses. Tinha ficado em albergues da juventude bonitos e asseados. Num deles arranjou um namorado com idade para ser seu filho. Deu-lhe explicações de inglês e, além disso, no Japão, os jovens gostam de gente mais velha.
Em Hong Kong, hospedou-se na pensão de uma senhora chamada Wood.
(...) Durante a estada em casa da senhora Wood, Miss Starling passou um mau bocado.
Ua noite, estava à procura da chave na porta, quando um chinês apareceu de repente e lhe pôs uma faca na garganta para lhe roubar a carteira.
-É claro que lha deu - disse eu.
- Nada disso! Mordi-lhe o braço. Tive a impressão de que ele estava mais assustado do que eu. Não era o que se podia chamar um ladrão profissional, percebe. Mas há uma coisa que eu hei-de lamentar toda a vida. Quase que lhe tirei a faca. Adoraria ter ficado com a lembrança.
Miss Starling contava ir visitar as azáleas no Nepal, não em Maio deste ano, mas no outro. Estava toda excitada com a ideia de ir passar o seu primeiro Outono nos Estados Unidos. Mas tinha gostado muito da Terra do Fogo. Passeava-se pelas floresta do Notofagus antarctica. O viveiro de plantas onde ela trabalhara em tempos vendia muitas.
- É lindíssimo - disse ela, olhando para a linha negra que separava as pampas das árvores ao longe. - Mas não gostaria de voltar.
- Nem eu! - exclamei."
Bruce Chatwin,
Na Patagónia, Quetzal, Lisboa, Fevereiro de 2009, tradução de Maria do Carmo Figueira
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