Hedi Annabi, um diplomata de nacionalidade tunisina, era há muitos anos funcionário da ONU e representava a organização no Haiti. Segundo as últimas informações, terá morrido no terramoto que assolou aquele pobre país.Annabi era meu amigo e amigo de Portugal. Era uma figura discreta, muito organizada e meticulosa. E um homem de uma só palavra, o que nem sempre é comum na vida multilateral (e noutras também, convenhamos). Em Nova Iorque, quando ele trabalhava no departamento de operações de paz, com o tema de Timor-Leste sobre a mesa, conversamos muitas vezes, pedindo-me sempre desculpa por só raramente poder aceitar os meus convites para jantar, porque vivia "upstate", para onde ia e vinha de comboio. Há cerca de quatro anos, através do meu colega Rui Macieira, Annabi sondou-me para uma tarefa honrosa no âmbito da ONU, hipótese a que me escusei, por vontade de continuar no Brasil. Hedi vai fazer falta, aos seus amigos e à ONU.Este desastre humano e material no Haiti deveria, a meu ver, servir para relançar o debate sobre a necessidade de um urgente reforço, no âmbito das Nações Unidas, das suas estruturas destinadas à ação humanitária, por forma a conferir à ONU um papel central de coordenação das tarefas dos diversos atores, desde a Cruz Vermelha às ONG's, para além dos Estados e das instituições multilaterais. Coisa que hoje não acontece.
Na ordem política interna, é vulgar dizer que não se deve legislar sob a pressão dos factos. Na vida internacional, a experiência prova que os acontecimentos são, quase sempre, a única alavanca eficaz.
A melhor homenagem que se poderia prestar a um servidor da causa da paz como foi Hedi Annabi seria, com certeza, lançar uma iniciativa que ajudasse a comunidade internacional a melhor reagir, no futuro, aos efeitos das tragédias como aquelas que resultaram na sua morte.
Embaixador Francisco Seixas da Costa in Blog - Duas ou três coisas - Notas pouco diárias do Embaixador Português em França
OS ESFORÇOS PARA ACUDIR AO HAITI (MAIS UMAS INICIATIVA...)
ResponderEliminarÉ um lugar comum. Os esforços para acudir às vítimas da tragédia do Haiti não serão
nunca demais. Morre-se em cada hora que passa. Cerca de 120 mil mortos, um grau de
destruição quase inimaginável, a agonia das estruturas
estatais/assistenciais/administrativas de um País. Pobre
situação a de um povo que começou a sua História lutando pela liberdade contra os donos
de escravos franceses no início do século XIX, que venceu essa prova, mas que tem
conhecido guerras internas, invasões e ocupações estrangeiras, além de desastres
naturais, ao longo de dois séculos... para já não falar das ditaduras que pouco dignos
filhos seus exerceram.
É curioso ver como se unem esforços.
Uma iniciativa em particular chama a atenção. O Nobel português, José Saramago , vai
promover uma edição especial de solidariedade do seu livro de 1986, "Jangada de Pedra".
Citando agências noticiosas e a sua fundação, «a acção de solidariedade reverte a favor
das vítimas do sismo do Haiti e decorrerá
futuramente também em Espanha e na América Latina. O livro custa €15 e estará disponível
nas livrarias a partir de sexta-feira; e porque, segundo o próprio Saramago "todos temos
uma obrigação", a campanha "Uma Jangada
de Pedra a caminho do Haiti" vai prolongar-se até 28 de Fevereiro de 2010.»
Recorde-se que esta obra descreve um cenário imaginário, no qual uma espécie de
terramoto lento separa a Península Ibérica do resto da Europa, e a coloca à deriva, como
uma gigantesca ilha, no que é interpretado por alguns críticos como uma das primeiras
manifestações de iberismo deste escritor. A catástrofe imaginária terá levado o autor a
escolher este livro
para esta acção, em que se procurará acudir às carências resultantes de uma catástrofe
real.
O livro é ainda hoje muito citado. Não parece crível que o autor, com este gesto,
esteja a sugerir que a Haiti se deva deixar governar por alguma potência externa e
vizinha, como por exemplo a República Dominicana, já que Saramago é um conhecido lutador
pela liberdade dos povos e pela direito à auto-determinação, como recentemente se viu em
relação ao Sahará ex-espanhol. Aliás, no livro, o Nobel não hesita em ironizar sobre as
esperanças espanholas sobre Gibraltar... que não acompanha a península na imaginária
ruptura geográfica... referindo mesmo que sobre este litígio o português é pouco
"sensível" ... já que «a sua mágoa histórica chama-se Olivença e este caminho não leva
lá.»(página 89)
Receia-se, porém, que Saramago não seja bem compreendido nesta sua iniciativa, por
causa da escolha desta obra em concreto, e que poderá sujeitar-se a alguns comentários
algo cépticos.
Penso que todas as iniciativas a favor do Haiti serão positivas, desde que eficazes
e desinteressadas. Esta não será excepção, mas penso que Saramago, e ele que me desculpe,
poderia ter escolhido outro texto. Valha-nos a qualidade literária!!!
Estremoz, 27 de Janeiro de 2010
Carlos Eduardo da Cruz Luna