terça-feira, 17 de novembro de 2009

O Sobreiro


O Sobreiro, D. Carlos de Bragança, 1905

I

Há valor, num homem, que despiu
A sua roupagem, e vestiu a cinza
Da terra e a erva da serra
Onde as bandeiras acabam e o poeta
Começa.

E heroísmo, no homem,
Que derrubou o mundo para o deixar
À solta e navegar,
As pincelagens do Sol a pôr-se.

II

Há mais em Portugal do que Portugal estar,
Há em Portugal rumar, amar, chorar;
Há na Terra vozes e no Atlântico, bramidos ferozes,
Civilizações com sangue bárbaro e luz de vida;

Há em Portugal, Portugal ser,
Há em Portugal, espalhar-se e amanhecer,
E noite funda e cemitério de amores
E homens que olham e se aprendem
E saber que eu sou isto e isto não é nome,
É pedra de aurora, é árvore por dentro
Como árvore por fora.

Oh, malditos párias, pouco sabendo
Das portas abertas por almas incertas,
Debaixo da cova e por cima das setas,
Brasão que pende sobre a vida e sob a morte.

Portugal não está aqui, mas tanto é
Esta estátua orgulhosa que suporta
E de um só tempo em cores se derrota,
Portugal pilhado em forma de livros e,
Depois, Portugal espalhado em todas as
Ruínas, nos fantasmas das aves
Que sobrevoam as memórias do chão
E da nação. E se um dia, se revolta
A recordação, a que chamais saudade,
Os anjos caídos aqui farão
Oásis e liberdade.


Horned Wolf

5 comentários:

  1. É um belíssimo poema, nota-se bem que não foi escrito com agulhas de crochet; que não tiveste um chilique às 4 da manhã, porque a almofada não acedeu às tuas investidas sexuais... LOL!!! Ou seja, resumindo: nota-se, vincadamente, que tens algo para dizer, que é força do chão a soprar na inspiração do bardo e que a poesia para ti não é choradeira, nem diário emocional!
    Morram todos os poetas que nos vêm falar da sua dor.

    Abraço MIL, lobito! ;)

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  2. Épica e drama, épica e drama. Despeja a lírica no penico, ficará em boa companhia...

    Vou-te passar uns textos em que Pessoa fundamenta esoterica e filosoficamente a superioridade da poesia épica e dramática à lírica, e mais uma coisas...

    Medita: os líricos não têm fôlego, só escrevem poemetos. São herdeiros de tradições palacianas de seduzir madames (eles e elas a trocar pó-de-arroz ao espelho dos pichichés - não curtes a palavra «pichiché»??).
    A épica e o drama são de peito cheio! As únicas em que o poema rivaliza com a extensão do prosador, e com a extensão sapiencial do filósofo (embora aqui tenha as «flechas» do aforismo, mas para os fazeres tens que viver mais 20 anos: a sabedoria é lenta).

    Nas arribas, em frente ao mar: enche o peito, e o chão da Finisterra de fará bardo, a terra tomará conta do teu coração. De nenhuma outra coroa precisarás.

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  3. P. S. «Bidé» também um termo lírico que eu adoro...

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  4. NOTA: afinal parece que se escreve «pechiché», é o que dá nunca ter visto um e achar a França um vómito... :)

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