*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*
BLOGUE DO MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO

Participe também nas nossas páginas "facebook":

http://www.facebook.com/groups/2391543356/
http://www.facebook.com/groups/168284006566849/

E veja os nossos vídeos:
http://www.youtube.com/movimentolusofono

Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; IBAN: PT50 0036 0283 9910 0034 5218 5; BIC: MPIOPTPL; NIF: 509 580 432

Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
Mostrar mensagens com a etiqueta Renato Epifânio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Renato Epifânio. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Abertura da sessão, por Maria Perpétua (Coordenadora da PASC) e Renato Epifânio (Presidente do MIL)

PASC — A Importância da Lusofonia para Portugal
Intervenções
X Encontro Público, 24.02.2012, Sociedade de Geografia de Lisboa




Fotos: Abertura da sessão, por Maria Perpétua (Coordenadora da PASC: Plataforma Activa da Sociedade Civil) e Renato Epifânio (Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono), Sociedade de Geografia de Lisboa, ©Jesus Carlos/MIL, 24 de Fevereiro de 2012.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Movimento Internacional Lusófono - breves considerações

O Movimento Internacional Lusófono é um movimento cultural e cívico com mais de 10.000 aderentes de todo o espaço linguístico português. Constituiu-se juridicamente como organização oficial no dia 15 de Outubro de 2010, embora já existisse anteriormente como um espaço de liberdade das sociedades civis da CPLP. O Movimento é composto estatutariamente por uma Direção, uma Assembleia Geral, um Conselho Fiscal e um Conselho Consultivo que reúne quase cem membros. Existem quase duas dezenas de membros honorários que sendo figuras prestigiadas subscrevem os objetivos do MIL.

O MIL tem promovido sessões culturais, como as que vão acontecer durante este ano na Biblioteca Municipal de Sesimbra, e tem subscrito diversas moções, promovido inúmeros debates públicos, recolhido livros e distinguido Personalidades Lusófonas com um Prémio simbólico no intuito de estreitar as relações afetivas, sociais, culturais, institucionais, políticas e económicas entre os países falantes da Língua Portuguesa. Este ano o MIL vai distinguir o Professor Doutor Adriano Moreira com o Prémio Personalidade Lusófona do ano de 2011 numa cerimónia pública que se realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa.

Os fundamentos desta agremiação estão nas raízes históricas lusófonas que temos procurado investigar em vários autores[1], no pensamento generoso e visionário de Agostinho da Silva que sustentava no século XX a necessidade de se constituir uma União Lusófona. Estes alicerces culturais vieram a tornar possível a CPLP em 1996, que no ano passado comemorou os seus 15 anos de vida. O Presidente do MIL, Renato Epifânio, escreveu um livro “A Via Lusófona – um Novo Horizonte para Portugal”[2] que nos apresenta com muita clareza e lucidez esta estratégia que a Pátria deve seguir, tendo feito sobre este livro uma breve recensão no meu blogue: “A VIA LUSÓFONA: UM NOVO HORIZONTE PARA PORTUGAL” - RECENSÃO CRÍTICA DO LIVRO DE RENATO EPIFÂNIO

A CPLP como instituição intergovernamental, o Prémio Camões como um reconhecimento literário a autores que têm enriquecido a Língua Portuguesa, a revista “Nova Águia” como uma publicação que tem abraçado o espírito lusófono nos seus conteúdos e nos locais em que se tem apresentado, a Associação Médica Internacional que tem valorizado a assistência humanitária aos países irmãos, a Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira e a Ciber Rádio Internacional Lusófona têm constituído parceiros insubstituíveis para consolidarem os laços culturais e afetivos de povos que a História tem vindo a aprofundar. Não quero deixar de mencionar a Academia Galega de Língua Portuguesa que foi reconhecida como Observador Consultivo da CPLP, apesar da posição do atual Executivo português.

Contam-se como membros honorários do MIL figuras prestigiadas da Comunidade Lusófona como sejam: Fernando Nobre como seu presidente honorário e Abel de Lacerda Botelho, Adriano Moreira, Amadeu Carvalho Homem, António Braz Teixeira, António Carlos Carvalho, António Gentil Martins, Dalila Pereira da Costa, Elsa Rodrigues dos Santos, Fernando dos Santos Neves, João Ferreira, José Manuel Anes, Lauro Moreira, Manuel Ferreira Patrício, Pinharanda Gomes e Ximenes Belo como sócios honorários que muito prestigiam, pelos seus relevantes serviços públicos, esta nossa Agremiação.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa constituída por oito países (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) formou-se para estimular a cooperação a diversos níveis e a defesa da Língua e da Cultura Portuguesa que tem sido enriquecida com a criativa genialidade dos autores e dos povos do espaço lusófono que transcende a contingência formal dos Estados como nos ensinou o brilhante filólogo Luís Lindley Cintra.

O MIL conta hoje em dia com um site oficial, um blogue e canal de vídeos que recolhe o testemunho de personalidades e de debates públicos que tem promovido. A sede do MIL localiza-se em Lisboa, mas como membro do Movimento congratulo-me com abertura de um novo núcleo no Porto. Aguardo com grande curiosidade o livro “Convergência lusófona (2008-2012) – As posições do MIL: Movimento Internacional Lusófono”, coordenado por Renato Epifânio.

Nuno Sotto Mayor Ferrão

Publicado originalmente em Crónicas do Professor Ferrão



[1] Nuno Sotto Mayor Ferrão, “A dinâmica histórica de lusofonia (1653-2011), in Nova Águia, nº 8, 2º semestre de 2011, Sintra, Editora Zéfiro, 2011, pp. 204-208.

[2] Renato Epifânio, A Via Lusófona – Um Novo Horizonte para Portugal, Sintra, Edições Zéfiro, 2010.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

HOJE

Convite

A Zéfiro e o MIL – Movimento Internacional Lusófono têm o prazer de convidar V. Ex.ª para o lançamento da obra Fernando Nobre – Diário de uma Campanha, que contará com a presença do autor Renato Epifânio e de Fernando Nobre.

Este lançamento terá lugar no dia 26 de Fevereiro (Sáb.), pelas 17h na sede do MIL, na Sociedade da Língua Portuguesa (Rua Mouzinho da Silveira, 23, Lisboa – junto ao Marquês de Pombal).

Esperamos ter o prazer da sua presença.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Apresentação este Sábado, na sede do MIL, às 17h, com a presença do Doutor Fernando Nobre

Reúnem-se aqui os textos que fomos escrevendo ao longo da campanha presidencial de Fernando Nobre, que acompanhámos e apoiámos, a título pessoal e em nome do MIL: Movimento Internacional Lusófono. Esses textos foram sendo publicados no MILhafre, o blogue do MIL e na página oficial da candidatura presidencial de Fernando Nobre, textos que, conforme um dia nos disse, o próprio foi lendo e apreciando.

Finda essa campanha, e dado o resultado extraordinário, uma pergunta se impõe: “E agora, Fernando Nobre?”



Entrada livre

Sede do MIL: Sociedade da Língua Portuguesa, Rua Mouzinho da Silveira, 23, 1250-166 Lisboa

(junto ao Marquês do Pombal)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Renato Epifânio: "Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império e, sobretudo, pela promessa dos "fundos"...

A Via Lusófona (www.portoeditora.pt)
A Via Lusófona (www.portoeditora.pt)
"Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império e, sobretudo, pela promessa dos "fundos", que desenvolveriam finalmente o país.
Foi pois, sobretudo, um "negócio". E os negócios nao merecem a deferência de um referendo.
O povo, aliás, na sua intuitiva sabedoria, sabe que é disso, sobretudo, que se trata: nós estamos na Europa para "sacar" algum dinheiro, o mais que pudermos. Para mais, como bem lembrava Agostinho da Silva, esses "fundos" eram-nos devidos. Se a Europa se tornou historicamente a região mais desenvolvida do mundo foi, desde logo, porque Portugal lhe abriu as portas do mundo. Nada mais justo, pois, do que agora sermos, enfim, pagos por esse nosso feito"

Renato Epifânio
A Via Lusófona

A questão é contudo a de saber qual seria o resultado de um Referendo em que existisse uma verdadeira imparcialidade das perguntas (rara nos Referendos...) e onde para além de um puro sufrágio à "opção europeia" surgissem também outras opções... agora que a torneira dos Fundos começa secar, o restrito e estéril economicismo fará valer as suas consequências... nomeadamente o seu maior falhanço que é o da incapacidade para criar uma "pátria europeia" ou uma consciência comum alavancada numa alma europeia ou mesmo na existência de uma verdadeira comunhão entre os cidadãos da Europa.

Sem Alma, não pode haver Europa que sobreviva a uma verdadeira crise económica. Os Estados-Nação conseguem sobreviver às Crises porque os seus Povos estão dispostos a suportar sacrifícios em nome de causas imediatistas e mecânicas. O sacrifício coletivo e/ou individual é apenas suportável quando cumprido em nome de uma causa maior. Que não são nem os secos balancetes da Contabilidade dos Estados nem a transferência de parcelas crescentes de Soberania e Liberdade para entidades Supra-estatais não democráticas e fisica e emocionalmente distantes das realidades locais.

Alguns dirão que a Europa está a morrer. Nós diríamos mais: nunca chegou a nascer, porque a atual União Europeia nunca passou o estádio da "comunhão de interesses de curto prazo", sem visão de longo prazo nem alavancagem anímica num conceito comum de "Pátria" ou "Alma Europeia". Perante tal situação, a aparição de uma Alternativa Lusófona é inevitável. E tanto mais depressa quanto mais flagrante for o fracasso da construção da tal "casa comum europeia" sonhada pelos seus fundadores, na década de 50...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Agostinho da Silva (1906-1994), pensador da cultura, da liberdade e da lusofonia

George Agostinho Baptista da Silva, nasceu no Porto no início do século XX no regime da Monarquia Constitucional, tendo-se destacado como professor, filósofo e poeta. Contudo, a sua humildade e o seu sentido cívico aproximaram-no dos cidadãos, que muitas vezes tendem a olhar de soslaio para os filósofos, na medida em que procurou fazer da filosofia o móbil de legitimação da intervenção na sociedade e, por isso, mostrou a importância da “praxis” na vida dos filósofos. Deste modo, evidenciou-se como um Humanista no seu original pensamento da Liberdade e da Lusofonia que edificou com os seus escritos e com a sua vida.

Formou-se em 1928 em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade do Porto com 20 valores. Desde então passou a colaborar na revista “Seara Nova”[1], durante 10 anos, onde teve oportunidade de conhecer grande parte do escol intelectual português. Com apenas 23 anos sustentou a sua Dissertação de Doutoramento, enveredando por uma perspectiva de Filosofia da História com o seu trabalho académico “O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas”. De 1931 a 1933, já no contexto do autoritarismo português, foi estudar para Paris como Bolseiro na Sorbonne e no Collège de France.

No regresso a Portugal em 1935, já em pleno Estado Novo, começa a leccionar no ensino público secundário, mas tendo-se recusado a assinar um documento, que obrigava todos os funcionários públicos a declararem que não participavam em organizações secretas, é exonerado do cargo. Passa então para o ensino privado, onde foi professor de Mário Soares e de Lagoa Henriques. Nesta fase da sua vida dedicou-se com empenho às questões pedagógicas, levando-o à criação da Escola Nova de São Domingos de Benfica e do Núcleo Pedagógico Antero de Quental.

No início dos anos 40 quando se torna mais incómodo, pelos seus escritos, para o regime Salazarista, posicionando-se como um denodado oposicionista, a PVDE ( antiga designação da PIDE ) prende-o em 1943 e a Igreja Católica critica-o pelas suas ideias religiosas pouco ortodoxas. Estes factos adversos, indicativos de plena assumpção da sua liberdade, irão levá-lo ao exílio na América do Sul, tendo estado no Brasil, no Uruguai e na Argentina.

De 1947 a 1969 viveu no Brasil onde estudou e ensinou em diversas Universidades. Foi, com efeito, um intelectual empreendedor ao participar na criação da Universidade de Santa Catarina e na Universidade de Brasília e ao criar Centros de Estudos[2] que o fizeram aprofundar a compreensão da importância da Lusofonia. A proximidade intelectual que manteve com Jaime Cortesão, na investigação que desenvolveram sobre a figura de Alexandre de Gusmão e na Exposição do Quarto Centenário da cidade de São Paulo, terá sido decisiva para aprofundar a sua convicção lusófona, pois este eminente Historiador dos Descobrimentos Portugueses sempre sustentou a tese do Humanismo Universalista dos Portugueses.

Agostinho da Silva regressou a Portugal durante o período do Marcelismo, em 1969, e dedicou-se nessa altura, fundamentalmente, à escrita. Só após a Revolução do 25 de Abril de 1974 passou a leccionar regularmente em Universidades Portuguesas, designadamente na Universidade Técnica de Lisboa onde dirigiu o Centro de Estudos Latino-Americanos e foi designado consultor do Instituto da Cultura e Língua Portuguesa. Veio a transformar-se num dos mentores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) pelas suas concepções e vivências lusófonas de fraternidade e união cultural dos países de língua portuguesa[3], sonhando mesmo com uma futura União Lusófona. Faleceu em Lisboa em 1994 sem conhecer esta nova instituição supranacional.

No princípio dos anos 90 a RTP1, imbuída de uma meritória missão de Serviço Público, emitiu uma série de notáveis entrevistas com o Professor Agostinho da Silva que o popularizou na sociedade portuguesa. Irei mostrar, de seguida, dois destes documentos televisivos intitulados “Conversas Vadias”. Além desta homenagem em vida, a este promotor da Cultura Lusófona, já postumamente constituiu-se a Associação Agostinho da Silva, em 1995, realizou-se a Comemoração do Centenário do seu nascimento, em 2006 e publicou-se o terceiro número da revista ‘Nova Águia’ intitulado “O legado de Agostinho da Silva – quinze anos após a sua morte”[4] em 2009.

O original pensamento filosófico, expresso muitas vezes numa linguagem poética de maior acessibilidade, de Agostinho da Silva, que nos foi legado pelos seus escritos e depoimentos orais, só aparentemente é libertário pelo tom provocador, crítico, que imprimiu em algumas das suas mediáticas entrevistas, mas, na verdade, este pensador foi um construtor de uma “praxis” comprometida com uma elevada consciência cívica e social actuante, como a sua vida nos demonstra sobejamente.

Nuno Sotto Mayor Ferrão

Publicado originalmente, com documentos acrescidos, no blogue Crónicas do Professor Ferrão


[1] Fernando Farelo Lopes, “Seara Nova”, in Dicionário Encclopédico da História de Portugal, vol. II, Alfragide, Selecções do Reader’s Digest, p. 216.

[2] Agostinho da Silva criou o Centro de Estudos Afro-Orientais na Universidade de Santa Catarina e o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses na Universidade de Brasília.

[3] Renato Epifânio, “Agostinho da Silva: um legado”, in A Via Lusófona – Um novo horizonte para Portugal, Sintra, Edições Zéfiro, 2010, pp. 86-89.

[4] Nova Águia, nº 3 – 1º Semestre de 2009, Sintra, Zéfiro Editores, 203 p.

sábado, 25 de setembro de 2010

"Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império"

.
"Portugal entrou para a Europa porque, entretanto, havia perdido o seu Império e, sobretudo, pela promessa dos "fundos", que desenvolveriam finalmente o país.
Foi pois, sobretudo, um "negócio". E os negócios não merecem a deferência de um referendo.
O povo, aliás, na sua intuitiva sabedoria, sabe que é disso, sobretudo, que se trata: nós estamos na Europa para "sacar" algum dinheiro, o mais que pudermos. Para mais, como bem lembrava Agostinho da Silva, esses "fundos" eram-nos devidos. Se a Europa se tornou historicamente a região mais desenvolvida do mundo foi, desde logo, porque Portugal lhe abriu as portas do mundo. Nada mais justo, pois, do que agora sermos, enfim, pagos por esse nosso feito"
A Via Lusófona, Renato Epifânio


A questão é contudo a de saber qual seria o resultado de um Referendo em que existisse uma verdadeira imparcialidade das perguntas (rara nos Referendos...) e onde para além de um puro sufrágio à "opção europeia" surgissem também outras opções... agora que a torneira dos Fundos começa secar, o restrito e estéril economicismo fará valer as suas consequências... nomeadamente o seu maior falhanço que é o da incapacidade para criar uma "pátria europeia" ou uma consciência comum alavancada numa alma europeia ou mesmo na existência de uma verdadeira comunhão entre os cidadãos da Europa.

Sem Alma, não pode haver Europa que sobreviva a uma verdadeira crise económica. Os Estados-Nação conseguem sobreviver às Crises porque os seus Povos estão dispostos a suportar sacrifícios em nome de causas imediatistas e mecânicas. O sacrifício coletivo e/ou individual é apenas suportável quando cumprido em nome de uma causa maior. Que não são nem os secos balancetes da Contabilidade dos Estados nem a transferência de parcelas crescentes de Soberania e Liberdade para entidades Supra-estatais não democráticas e física e emocionalmente distantes das realidades locais.

Alguns dirão que a Europa está a morrer. Nós diríamos mais: nunca chegou a nascer, porque a atual União Europeia nunca passou o estádio da "comunhão de interesses de curto prazo", sem visão de longo prazo nem alavancagem anímica num conceito comum de "Pátria" ou "Alma Europeia". Perante tal situação, a aparição de uma Alternativa Lusófona é inevitável. E tanto mais depressa quanto mais flagrante for o fracasso da construção da tal "casa comum europeia" sonhada pelos seus fundadores, na década de 50...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Renato Epifânio: "A política, cada vez mais, parece reduzir-se a uma mera gestão económica"

.
"... a ideia de Pátria deixou de ser actual pela extremação do individualismo contemporâneo. As pessoas, cada vez mais, recusam o que as liga, valorizando antes, até ao extremo, o que as separa - e por isso caracterizou José Marinho, a nossa época como a "a época da cisão extrema". Também por isso, a política, cada vez mais, parece reduzir-se a uma mera gestão económica."
A Via Lusófona, Renato Epifânio

Sendo essa autocastração a maior maleita dos regimes atuais. Se um Governo democraticamente eleito concentra toda a sua atividade na área contabilística e económica então recusa toda a outra intervenção política. Se um governo se torna em executante passivo e acéfalo de políticas definidas num qualquer "centro de comando" remoto e não democrático, enjeita a sua representatividade democrática e renega a Democracia.

Governar não é Gerir. Governar é saber ver mais alto e longe, traçar rumos e saber levar barcos - com determinação e sem receio por fúteis impopularidades - até um objetivo que tem que existir e ser traçado. Atualmente, nenhum governo ou partido consegue ver mais longe que o imediato. Todos vivem obcecados com o curto prazo das próximas eleições e isso resulta da tomada da Democracia pela Partidocracia, com o seu doentio e egótico rotativismo. Importa quebrar este monopólio, devolvendo ao indivíduo o sentimento de pertença a uma comunidade e a algo maior, onde se pode projetar e enquadrar, completando essa clássica incompletitude que está na base de tantas das esquizófrenias das sociedades modernas.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

“A Via Lusófona: Um Novo Horizonte para Portugal” - Recensão Crítica do Livro de Renato Epifânio

Renato Epifânio, investigador e especialista na área da Cultura Portuguesa Contemporânea, tem-se afirmado na sociedade portuguesa como um dos grandes defensores da Lusofonia no plano teórico, mediante uma pertinente fundamentação, e no plano prático, através de uma relevante intervenção no Movimento Internacional Lusófono. A Lusofonia pode ser definida como o espaço geográfico dos afectos partilhados entre os povos e os países falantes da Língua Portuguesa que se reconhecem numa comum matriz cultural.
O destino de Portugal consiste, na sua percepção, na promoção da convergência lusófona no sentido de se assumir um novo horizonte e de servir de modelo para uma renovada estratégia da política externa portuguesa. Assim, o fundamento identitário desta estratégia é a ideia da Pátria Portuguesa como uma Comunidade ancorada na sua Cultura e na sua História, em particular nestes tempos intempestivos da Globalização desregrada. Neste sentido, o sentimento nacional de defesa das tradições culturais de uma Comunidade pode servir nesta conjuntura como resistência intrínseca à uniformização Globalizante e Europeísta, ao mesmo tempo que pode despertar a vontade de valorizar o Património Histórico do País.
Esta obra desvenda-nos que o Movimento Internacional Lusófono surgiu como resposta ao contexto, internacional e nacional, de crise de confiança nas relações internacionais e de insuficiente convergência lusófona implementada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Por esta razão, o Movimento Internacional Lusófono (MIL) tem como horizonte, a longo prazo, a criação de uma União Lusófona que seja parte da solução, e se constitua, mesmo, como um novo paradigma, para responder de forma cabal à egoísta Globalização e à predominante visão tecnocrática em que estamos mergulhados. Renato Epifânio explica-nos, com muita clarividência, que este organismo da sociedade civil se desenvolveu, precisamente, para dinamizar esta estratégia.
Neste seu livro[1] de profunda lucidez, fruto da reunião de textos publicados de forma avulsa nos blogues do “Milhafre” e da “Nova Águia”, apresenta-nos dois grandes vultos da Cultura Portuguesa, que em épocas diferentes viveram no Brasil, tendo estado na base da formação do sentimento lusófono, respectivamente: o Padre António Vieira, no século XVII, como precursor deste sentimento e o Filósofo Agostinho da Silva, no século XX, que se tornou no grande inspirador de um projecto institucional lusófono, do que veio a ser a CPLP. Deste modo, este pensador revelou ter um juízo equilibrado, ao compatibilizar uma percepção idealista com um forte sentido pragmático, que, inclusivamente, o levou a gizar a possibilidade de um dia se criar uma União Lusófona.
Para o MIL, a concepção Lusófona emergiu como a estratégia de internacionalização da Pátria Portuguesa, que se configurou como uma “terceira via”, visto que a via colonial se esgotou com o Estado Novo e a via Europeísta se afigura como exígua, embora continue relevante. Daí, o facto de, esta organização ter proposto já várias Petições em prol de um reforço da convergência lusófona dos países falantes da Língua Portuguesa. Deste modo, esta organização constitui-se como instrumento de pressão para o aprofundamento institucional da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, porque, na opinião de Renato Epifânio, esta realidade tem de emergir da vontade da sociedade civil. Desta maneira, esta estratégia deve crescer da dinâmica espontânea da convergência lusófona que partindo do sentimento de afecto e de identificação de um património cultural comum dos países de expressão portuguesa se desenvolva na consubstanciação de uma renovada CPLP, rumo a uma futura e desejada União Lusófona pensada por Agostinho da Silva.
Por conseguinte, o espaço lusófono afirma-se como uma dimensão transnacional da Cultura Portuguesa que se cruzou e aculturou com os costumes e as tradições dos diversos países irmãos (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) num forte sentimento de pertença a uma identidade comum. Esta revigorante estratégia, emanada deste profundo sentimento, articula-se com uma crítica da política internacional subjugada aos interesses económicos dos oligopólios, critério prevalecente na actual Globalização, surgindo como sugestão para este incontornável problema a sustentação de uma política fundada nos “caboucos” culturais e nas ideias solidárias que poderão garantir a coesão social de um país e de espaços transnacionais. Sem enraizar este fundamento, a crise nacional, que se intersecta com a crise europeia e a crise mundial, não será resolúvel, uma vez que o fenómeno individualista será preponderante. Por conseguinte, só o recurso à ideia de Pátria, moldada num mesmo destino histórico, que seja a expressão espiritual de uma Comunidade poderá consolidar os laços de uma identificação comum que facilite a entreajuda entre os cidadãos do espaço nacional e do espaço lusófono.
Assim, esta nova estratégia internacional, defendida pelo autor, para Portugal no século XXI, afigura-se como uma “terceira via estratégica” ao compatibilizar a convergência Lusófona com o ideal Europeísta, no absoluto respeito pela noção cultural de Pátria. Todavia, convém, na sua perspectiva, superar os preconceitos de alguns democratas contra o conceito de Patriotismo, porque, se é verdade que o Salazarismo se serviu da semântica histórica desta noção, não significa que o esvaziemos da sua actualidade simbólica. Com efeito, o Movimento Internacional Lusófono aparece-nos com uma visão política de síntese que conjuga estes caminhos de internacionalização do país, aparentemente, antagónicos.
Renato Epifânio, na qualidade de dirigente e porta-voz do Movimento Internacional Lusófono, procurou demonstrar, através deste livro, a coerência e a amplitude das posições assumidas por este Movimento no contexto da presente conjuntura internacional, caracterizada por uma crise múltipla que se manifesta a vários níveis e graus:

· A Crise Moral e Financeira do Estado-Providência dos países Ocidentais;
· A Crise do Sistema Partidocrático nacional que tem sido factor de crescente aprisionamento da liberdade de consciência dos políticos e dos cidadãos;
· A Crise Ética decorrente da desregrada Globalização, que tem potenciado os surtos de corrupção e de individualismo, “varrendo” vários países contribui para a desestruturação das Comunidades Patrióticas;
· A Crise das Democracias Europeias e dos Direitos Humanos devido à ineficácia operativa das estruturas supranacionais, designadamente da União Europeia e da Organização das Nações Unidas; etc.

Neste sentido, a via de convergência lusófona tem surgido a muitos cidadãos, militantes do Movimento Internacional Lusófono, como uma assertiva resposta sentimental e institucional para superar o impasse que tem pairado ao nível da construção Europeia, no início do século XXI, entre a escolha de uma estratégia comunitária ineficaz, dado o excessivo alargamento a que a União Europeia foi submetida, e as estratégias nacionalistas que irão favorecer as grandes potências Europeias (Alemanha e França).

O autor esclarece-nos que este Movimento tem proposto medidas concretas conducentes a uma convergência lusófona através de diversas Petições Públicas, designadamente das seguintes: 1. Criação de um Passaporte para uma futura Cidadania Lusófona; 2. Apoio ao Acordo Ortográfico; 3. Pressão a favor de um maior envolvimento da CPLP na Guiné-Bissau; 4. Criação de uma Força Militar Lusófona de Manutenção de Paz; 5. Campanha a favor da distribuição de livros, excedentários em Portugal, no espaço lusófono. Foi, ainda, proposta uma Petição, de âmbito político, favorável à legitimação institucional de candidaturas independentes à Assembleia da República.
Este inspirado livro de divulgação da estratégia lusófona, que parte de pressupostos históricos, filosóficos e culturais, fornece-nos um retrato fiel da acção desenvolvida pelo Movimento Internacional Lusófono, desde a sua criação até aos nossos dias, em benefício do reforço solidário entre os povos lusófonos.
Renato Epifânio termina as suas considerações em prol da convergência lusófona com a referência a duas relevantes iniciativas do Movimento Internacional Lusófono que têm concorrido para a sua maior visibilidade mediática: a atribuição do Prémio Personalidade Lusófona 2009 pelo MIL, na Academia das Ciências de Lisboa, ao Embaixador Lauro Moreira, pelo seu contributo para o aprofundamento institucional da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e o apoio imediato à candidatura do Dr. Fernando Nobre à Presidência da República pela sua independência partidária e pelo seu profundo conhecimento do espaço lusófono, como Presidente da Associação Médica Internacional, e pela sua intenção de valorizar esta estratégia nacional. É, pois, um livro de incontornável valor para quem deseja conhecer melhor os fundamentos teóricos e as propostas práticas do Movimento Internacional Lusófono num caminho de convergência dos laços afectivos e institucionais dos países integrantes da CPLP.

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Outros textos podem ser encontrados no blogue
Crónicas do Professor Ferrão.

[1] Renato Epifânio, A Via Lusófona – Um Novo Horizonte para Portugal, Sintra, Edições Zéfiro, 2010.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ainda sobre "A Via Lusófona"

Renato Epifânio
A Via Lusófona. Um novo horizonte para Portugal
Zéfiro, Sintra, 2010

Entre as intenções do agir e os efectivos resultados dele muitos factores intervêm (imprevistos uns e imprevisíveis outros) que, se não anulam a responsabilidade pessoal pela iniciativa (antes a encarecem, face aos riscos inerentes), exigem que matizemos o juízo ético em relação às consequências, por vezes inesperadas. Aliás, quanto mais elevado for o plano da acção, ultrapassando a ordem natural, mecânica ou técnica, maior será a incerteza quanto ao acerto das decisões. Assim acontece na política, pelo que, sobretudo a médio e longo prazo, se observam linhas de continuidade e descontinuidade que, escapando talvez aos protagonistas identificados pelo historiador, são motivo de reflexão para o filósofo da história.
A publicação de A Via Lusófona. Um novo horizonte para Portugal, reunindo em livro um conjunto de textos, quase todos muito breves, anteriormente dados a público na internet por Renato Epifânio, suscita questões desta índole. O que logo ressalta da leitura dos documentos, em grande parte redigidos com poucas horas de intervalo sobre os acontecimentos a que se reportam, é a maturidade com que os problemas são tratados. Não obstante a oportunidade e a concisão formal, as tomadas de posição mantêm perfeita coerência, o que faz supor uma doutrina bem definida, embora só explicitada nos traços gerais, bem como um projecto de intervenção amplo e adaptável, mas nem por isso menos ambicioso e de modo algum utópico.
De sublinhar também que o carácter pessoal dos textos, cuja autoria é assumida com toda a frontalidade, se articula a um compromisso transpessoal, o do Movimento Lusófono Internacional – o MIL, de que aparece, por mais de uma vez, como a voz autorizada. Estamos perante a expressão de um movimento geracional dos portugueses nascidos e criados depois de 1974, num contexto muito diferente daquele em que se formaram as gerações dos pais e dos avós, pelo que já não obedecem às mesmas palavras de ordem nem se conformam às metas perimidas. Daí a reivindicação de um paradigma novo ou renovado, o de um nacionalismo radicado no sistema de valores culturais de que a língua portuguesa constitui a chave e a referência essencial.
Alguns politólogos, como o Professor Vamireh Chacon, tinham já constatado que as afinidades culturais tendem a assumir importância decisiva na geografia política que se vai desenhando na sequência do fracasso da solução prosseguida pela União Soviética. Há disso sinais evidentes desde há muito, mormente no âmbito do islamismo, cuja atitude expansiva, de motivação religiosa, se vem sobrepondo passo a passo aos argumentos ideológicos correntes desde 1945 em especial. As mudanças desta natureza são, porém, lentas e sujeitas a recurso, pelo que continuam a surtir efeito as linhas de força antecedentes, não faltando sociedades – entre as quais algumas ditas emergentes… – que almejam imitar e até vencer no seu terreno as potências em declínio, cujo modelo cultural aliás contestam.
No atinente a Portugal não se vislumbra, infelizmente, melhor orientação, já que os homens do poder, moldados pelas ficções ideológicas do século passado, depois de terem desmantelado o projecto multissecular que singularizava Portugal, concluíram não ser viável sustentarmos uma estratégia própria. A última palavra na resolução dos problemas nacionais passou a ser dada pelas instâncias estrangeiras a cuja hegemonia o País se rendeu, numa abdicação que afecta já os factores decisivos da identidade do povo português. Compreende-se, pois, que tenha surgido entre as novas gerações um movimento pendular que reivindica o respeito e a valorização do património que garanta a razão de ser de uma pátria com voz própria no concerto internacional.
Ao sublinhar a capital importância política da cultura e em especial da língua portuguesa – cuja riquíssima literatura oral e escrita, nas suas dimensões pragmática, científica, artística, filosófica e religiosa, move tantos homens por toda a terra –, Renato Epifânio e os militantes do MIL dão prova de uma lucidez e coragem dignas do melhor apreço. Pode mesmo dizer-se que, fazendo da necessidade virtude, como é de regra em circunstâncias análogas, eles resgatam, superando-os, os erros cometidos outrora – por influxo alheio, umas vezes, por cegueira própria, outras –, reorientando o nosso rumo de acordo com a sua mais genuína inspiração. Daí a invocação, por mais de uma vez, de Agostinho da Silva, um dos que melhor e com mais veemência instou para esse reencontro com a nossa autêntica alma, nos últimos séculos sacrificada a um espírito adverso, cuja perversidade atinge hoje as raias do insuportável.
Há uma via lusófona a construir, que não pode ser a de uma parcela ou de um partido, nem mesmo a de um país fechado no avarento egoísmo das economias, porque há-de ser a de todos os que se reconhecem no superior espírito que fala através dos verídicos poetas, como aquele que elegemos para nosso símbolo comum desde que nos deu Os Lusíadas. Não obstante a incerteza que envolve toda a acção humana, mais forte é a esperança que guia quem aspira àquela harmonia humana e cósmica que brindou o Gama e os seus companheiros, depois de cumprida a missão, a que esforçadamente se devotaram, de religar o que estava separado, vencidas as tentações para desistirem, face aos perigos iminentes. Pouco depende talvez de cada um de nós, mas tudo por certo depende da generosidade com que cada um de per si contribuir para a finalidade comum, cujo segredo brilha com lucidez em algumas obras-primas; pois se é próprio do homem errar, essa é também a condição para alcançar aquele porto venturoso que o redimirá e com ele todas as criaturas.
Porque nos instiga a enfrentar os riscos de cumprirmos o nosso mais alto destino como povo, a quem não é legítimo abdicar da autonomia nem da razão que o liga aos demais, o livro de Renato Epifânio merece ser saudado e meditado como luminoso motivo de esperança.

Na Casa de Portugal, véspera do 10 de Junho de 2010.
Joaquim Domingues

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ainda sobre "A Via Lusófona"

Via Sincera
Rodrigo Sobral Cunha

Para o Renato Epifânio

Que me seja permitido nesta ocasião*, junto destes amantes do saber em língua portuguesa – e homenageando um deles –, começar por chamar para o nosso convívio alguém que, na realidade, há muito faz parte dele, Thomas Carlyle, que dizia o seguinte bem a propósito:
“Afirmo que a sinceridade, a profunda, a grande, a genuína sinceridade, é a primeira característica de todos os homens que de algum modo são heróis. Não a sinceridade que a si própria se chama sincera; ah, não, porque esta de pouco vale, na verdade; – não a sinceridade superficial, jactanciosa, consciente, porque esta muitas vezes não passa de pretensão. A sinceridade dos homens superiores é de tal espécie que ele nem sequer dela fala, porque dela não está consciente; não quero com isto dizer que esteja consciente de insinceridade; porque, qual será o homem que possa progredir desviando-se da lei da verdade, por um só dia que seja? Não; o homem superior nem se jacta de ser sincero, longe disso; é que ele não pode deixar de ser sincero! A grande realidade da existência é grande para ele. Por mais que se eleve, não pode afastar-se da terrível presença da realidade. O seu espírito é assim feito de verdade; é grande por isso, antes de tudo o mais. Terrível e maravilhoso, tão real como a vida, tão real como a morte, é este universo para ele. Ainda que todos os homens esquecessem a sua verdade e caminhassem por entre sombras vãs, ele não poderia fazer o mesmo. A todos os momentos o reflexo da chama brilha acima da sua cabeça, inegavelmente, sempre, sempre! Desejaria eu que aceitásseis esta como a minha primeira definição do homem superior. O homem vulgar pode ter essa qualidade, porque ela compete a todos os homens criados por Deus; não pode, porém, haver homem superior que não a possua.”[1]
Meio século antes do pensamento do filósofo escocês que acabais de escutar na tradução de Álvaro Ribeiro, traduzia Sampaio Bruno livremente a continuação desta mesma passagem daquele que designava “o poderoso livro de Carlyle acerca dos heróis e do heroísmo”; considerando então o herói
“um mensageiro enviado do fundo do misterioso Infinito com novas para nós... Ele vem da substância interior das coisas. Aí vive e aí deve viver em comunhão quotidiana... Ele vem do coração do mundo, da realidade primordial das coisas; a inspiração do Todo-Poderoso dá-lhe a inteligência, e verdadeiramente o que ele pronuncia é uma espécie de revelação.”[2]
Mais dizia Sampaio Bruno:
“E a vida, heróica ou pura, santa ou genial, do grande homem convém que se exiba, na sua rutilância, quando tão fumosas se condensam as desmoralizantes sombras das malfeitorias que vinham e vêm sendo o amargo pão-nosso de cada dia.”[3]
E indicava:
“Assim, o culto dos heróis não se degrada em idolatria, e a humanidade, reverenciando o heróico na história, nos seus representantes se contempla, reconhecendo-se e incessantemente aperfeiçoando-se.”[4]
Tal era o que Álvaro Ribeiro igualmente defenderia:
“Em todas as sociedades civilizadas existe este processo de cultura que se chama culto dos homens superiores. Cada povo elege as personalidades históricas e as personagens lendárias que celebra na representação social do seu destino e da sua liberdade.”[5]

Agora, se principiámos por aqui as palavras que correspondem ao convite que nos foi endereçado pelo autor do livro A Via Lusófona, foi porque, logo na abertura deste, Renato Epifânio faz suportar a noção de Pátria no conceito de cultura; e se este ligado está a culto e aquela a patres (decerto os pais heróicos), assim é que do cultivo dos heróis (que dão forma à pátria, ou se preferirdes, verdadeiramente a informam), tal como do culto destes – decorre aquela cultura que dá de beber às nações, tal como penetra nos campos a água dos rios depois de ser onda do mar e nuvem celeste.
É desta cultura, que espiritualiza as nações, que vemos surgir, à cabeça d’A Via Lusófona, a efígie de Agostinho da Silva como aquele em quem convergem o pensamento e a acção no culto sublime do Espírito Santo. Do mesmo passo que tem o poder de suplantar a “época da cisão extrema” (assim chamou José Marinho a este tempo, conforme recorda Renato Epifânio), convida já o culto do Espírito Santo à extremosa Acção. Obra daquela cultura que vivifica as nações, na de Agostinho da Silva se elege como herói o Povo Português, nascedoiro de nações que conversam acerca do universo em português. Ora, desta conversa é feita a via lusófona.
Ao contrário do que julgam aqueles que se encontram submersos na barbárie solipsista ou na barbárie do colectivismo uniforme, este livro de Renato Epifânio não é o diário de bordo de um navegador solitário: antes nele se encontram, como o vaivém das ondas, as notas de quem voga sobre esse murmúrio luso das águas que une quanto no tempo e no espaço parece separado.
Pela missão que recaiu sobre os ombros de Renato Epifânio, diremos assim dele que, inclusivamente pelo nome, se liga tanto à Renascença Portuguesa como ao que com ela, de diáfano, advém (para quem possa ver).
Mas se alta é a causa, baixos são ainda os homens. Mal ressoa ao duro humano ouvido o combate que se dá entre o Visível e o Invisível.
Mas o que combate, cordato e pacífico, Renato Epifânio – que de si mesmo diz que olha todas as pessoas de frente? Deixe-me responder de dois modos: combate o patricídio perpetrado por aqueles que dilaceram o corpo e a alma da nação portuguesa e todos os veios que a ligam ao mundo. Enquanto sopra a nortada, debaixo dos círculos dos abutres entrega-se a avidez dos chacais à voragem da hora sob o tempo insepulto. De 1755 aqui são dez gerações, de mal a pior, sob o governo burgesso (de burguês) dos publicanos (os cobradores de impostos) sem alma.
Mas regressemos ao início desta ocasião, já que Renato Epifânio é um dos poucos homens sinceros que conhecemos e chamou Carlyle à sinceridade “o mérito salvador, agora como sempre” – precisamente contra as épocas doentes de cepticismo e insinceridade (“Mundo insincero; ateísta, não verdadeiro mundo!”, no qual “Saem os heróis, entram os charlatães”, onde nem sequer há a esperar “nenhuma alba neste crepúsculo do mundo”). Recorda, todavia, o nosso conviva escocês:
“Somente num mundo de homens sinceros a unidade é possível; só entre eles, e ao fim de muito tempo, a unidade pode ser tida por boa e certa.”
E:
“O mérito da originalidade não está na novidade; está na sinceridade.”[6]
Concluindo:
“Profetizo que o mundo vai tornar-se mais uma vez sincero, crente, acolhedor de muitos heróis, mundo heróico, enfim. Será então um mundo vitorioso; não o será até então.”[7]
Concluamos também nós, meu caro Renato e amigos nossos:
Os antigos romanos diziam: Decorum est pro patria mori (decoroso é morrer pela pátria); porém, nós diremos aqui: Decorum est pro patria vivere.
É que há um segredo.
____________
* Este texto foi lido pelo autor na sessão de lançamento de A Via Lusófona, de Renato Epifânio, que teve lugar na Biblioteca Municipal de Sesimbra, no dia 29 de maio de 2010.
[1] T. Carlyle, Os Heróis (Tradução portuguesa e Apresentação de Álvaro Ribeiro, 1956), Lisboa, Guimarães Editores, 2002, pp. 51-52.
[2] Bruno, A Questão Religiosa, Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, editores, 1907, pp. 152, 373.
[3] Ibid., p. 372.
[4] Ibid., p. 385.
[5] Na Apresentação de Os Heróis, ob. cit., p. 13.
[6] Os Heróis, p. 120. Aí pode ler-se: “Todas as épocas, a que chamamos épocas de fé, são originais; todos os homens, ou quase todos os homens, são nessas épocas sinceros. [...] Eis a verdadeira união, a verdadeira regência, a lealdade, todas as coisas verdadeiras e benditas na medida em que a pobre Terra pode produzir bênçãos para os homens.”
[7] Ibid., p. 164.

sábado, 29 de maio de 2010

Hoje

No dia 29 de Maio, sábado, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, decorrerá o Colóquio Anarquia, Monarquia e República, no qual serão oradores António Telmo ("Monarquia e República") e António Cândido Franco ("Anarquia e República").

Na ocasião, serão lançados os novos livros de António Telmo (Luís de Camões, 1.º volume das obras completas, com a chancela da Al-Barzakh e apresentação de António Cândido Franco) e Renato Epifânio (A Via Lusófona, da colecção Nova Águia, com a chancela da Zéfiro e apresentação de Rodrigo Sobral Cunha).

sábado, 22 de maio de 2010

Lançamento hoje, às 18h, na Sociedade de Língua Portuguesa (Lisboa, Rua Mouzinho da Silveira, 23; junto ao Marquês de Pombal)

O Renato Epifânio faz parte de uma geração espiritual e filosófica que escapou ao absoluto domínio totalitário da Europa no pensamento português, postulando uma nova alternativa para Portugal. A Europa não satisfaz hoje esta nova geração, ou melhor, não a satisfaz em absoluto, legando à nossa consciência crítica o imenso vazio das civilizações decadentes, aquelas que já não fazem História mas ainda não saíram da História.
Desde a II Guerra Mundial, o aparelho de Estado, privilegiando exclusivamente um sector da sociedade – a economia –, desprezando fundo os valores morais e espirituais próprios da cultura europeia, tem gerado na mente dos europeus uma representação parcial de si próprios, que, incapaz de se elevar à unidade de uma ideologia estruturada e consolidada, se caracteriza pela passividade cívica, compensada por uma hipervalorização do individualismo, assente na fórmula amoral do “salve-se quem puder”. Mistura de complexo de superioridade com um arreigado individualismo americano, o projecto político europeu caracteriza-se hoje, nos começos do século XXI, pela exaltação unidimensional do homem técnico, o homem-eficiente, o homem-contabilista, o homem-robótico, desprovido de consciência histórica global, funcionando exclusivamente segundo o duplo horizonte de raciocínios técnicos quantitativos e consequentes objectivos. Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas técnicos, robots substituíveis uns pelos outros, possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o argumentário da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade.
É contra esta Europa que o Renato combate, não contra o legado humanista e a herança espiritual europeias. O combate do Renato, que lhe alimenta um pensamento pessoal, bem como a sua acção pública, desdobra-se em quatro vertentes:

1. Exemplo determinante da sua personalidade tem sido a sua acção na Associação Agostinho da Silva, onde, junto com as restantes direcções, tem pugnado para que não desapareçam da sociedade portuguesa os valores privilegiados pelo seu patrono: os valores do sentimento e da comoção, os valores do gregarismo e da generosidade, os valores da partilha e da solidariedade, unidos e vinculados a um sentido transcendente orientador dos povos na busca da justiça, da abastança e do amor. É uma associação onde o Renato se sente bem porque defendem ambos ser a razão menos importante que a paixão, o calculismo na vida menos importante que a fruição lúdica da vida, o interesse económico menos importante que uma vida desinteressada de bens materiais. Não há, em Portugal, outra Associação tão desprendida de interesses políticos e materiais e tão aberta à pluralidade das manifestações da existência.

2. - Numa outra vertente da sua acção cívica, o Renato foi um dos criadores do MIL: Movimento Internacional Lusófono, que começou por ser uma extensão dos valores da AAS aplicados aos países da Lusofonia e hoje possui uma independência própria. Aqui o Renato está em casa, defendendo uma nova forma de organização entre os povos, fundada na absoluta igualdade institucional e vivencial, a contínua partilha de recursos e actividades entre todos, obviando à inexistência de países super-pobres (Guiné-Bissau, São Tomé e Timor), uma diplomacia de paz e de justiça (o passaporte lusófono), todos unidos numa concórdia sem ressentimentos, criando uma zona territorial geográfica de união fraterna (escolas e empregos de um país abertos a todos os cidadãos lusófonos, que entre estes países circulariam livremente) que constituísse uma espécie de “choque cultural” para o mundo.

3. - A terceira vertente da sua acção cívica prende-se com a direcção da Nova Águia, partilhada com o Paulo Borges e a Celeste Natário. Aqui, em conformidade com a sua participação na AAS e no MIL, o Renato estabeleceu como horizonte da sua acção espiritual e filosófica a renovação dos valores permanentes da “Renascença Portuguesa”. O que significa intentar reavivar os valores da “Renascença Portuguesa” no início do século XXI? Significa, obedecendo aos ditames filosóficos de Teixeira de Pascoais, uma única coisa, mas tão imensa que se estabelece como horizonte teórico e prático de vida: que o pensamento é superior à matéria e o espírito ao corpo; ou, ainda, que sem transcendência espiritual de valores ligados à beleza, ao bem e ao sagrado (mesmo à natureza como sagrado) Portugal se transformará numa mera região geográfica da Comunidade Europeia, cheia de sol, de turistas e de euros, mas coarctada do essencial da vida que realiza os povos e os cidadãos. Não seremos já analfabetos e pobres, mas cidadãos culturalmente ignorantes, ileteratos, robôs movidos a dinheiro, tão alegres exteriormente quanto vazios e infelizes interiormente. Significa isto, igualmente, que o homem europeu tem de ser redimido de um capitalismo consumista acéfalo, que produz máquinas económicas e corpos esbeltos, e orientado para um comunitarismo moderno e urbano em que a arte e a cultura tanto se tornem acontecimentos festivos e diários como a compaixão pelo que sofre ou necessita se torne dominante. O presente alimenta-se da mutilação do homem, unidimensionaliza-o numa estreita visão economicista; o futuro consiste na libertação deste homem-máquina e na assumpção de um homem pluridimensional, aberto a todos os valores, vivenciando uma realização quotidiana assente na união entre o corpo e o espírito – pensar, amar, trabalhar serão fundidos num único verbo: viver em plenitude. Esta era a mensagem de T. de Pascoais, esta a mensagem da Nova Águia, esta a compreensão geral da acção do Renato em prol do MIL – a necessária pluridimensionalidade de valores forço-a a resgatar a Europa juntando-lhe o sabor Lusófono, os valores Lusófonos

4. - Finalmente, uma quarta vertente do Renato, porventura a mais descuidada por evidente falta de tempo: a sua acção como investigador do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa. Ele é autor de um dos melhores estudos sobre José Marinho (Fundamentos e Firmamentos do Pensamento Português Contemporâneo), bem como de dezenas de estudos sobre ao Filosofia em Portugal, dos quais destacamos os dois livros publicados sobre Agostinho da Silva, Visões de Agostinho da Silva (2006) e Perspectivas sobre Agostinho da Silva (2008), bem como o estudo “Repertório da Bibliografia Filosófica Portuguesa”, em parte publicado na revista Philosophica, da Faculdade de Letras de Lisboa.
De qualquer modo, existe um trabalho subterrâneo, enquanto bolseiro de pós-doutoramento da FCT, sobre "as três fases do pensamento de Agostinho da Silva", que dará, talvez já no próximo ano, os seus primeiros frutos -, que esperamos ansiosamente. De referir, igualmente, a obra Via aberta: de Marinho a Pessoa, da Finisterra ao Oriente (2009), onde se encontram alguns dos seus estudos mais significativos sobre Filosofia em Portugal.
Nas suas intervenções filosóficas, o Renato tem dado um particular enfoque à valorização da língua e da cultura como eixos configuradores do pensamento português e, por acrescento civilizacional, da nova ordem política lusófona. Com efeito, se grande luta da geração de 50/60 consistiu na inscrição da Europa no pensamento português, a grande luta da geração do Renato consiste em persuadir os diversos aparelhos de Estado nacionais que, sem atropelo da necessidade da Europa, a Lusofonia deve ser inscrita com urgente prioridade nos programas políticos tanto dos partidos portugueses quanto dos partidos nacionais dos países lusófonos, a começar, evidentemente, pelo Brasil. Neste sentido, no caso da cultura portuguesa e no caminho aberto por Agostinho da Silva, a realização espiritual para que os livros do Renato apontam, e que A Via Lusófona é óptimo exemplo, consistiria na criação de uma comunidade de língua portuguesa onde todos os povos pudessem, de forma inteiramente livre, assumir, de modo pleno, a especificidade da sua cultura.

Obrigado, Renato, pela tua extrema dedicação à causa Lusófona. Com efeito, não tenho dúvida seres tu hoje o mais intrépido defensor militante da Lusofonia. Se eu tivesse algum poder, nomeava-te o “Militante Número Um” da Lusofonia.

Azenhas do Mar, 20 de Maio de 2010,
Miguel Real.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sobre "A Via Lusófona"

O seu livro foi quase uma revelação, não pela orientação, mas pela forma, de notável clareza e pertinência, para já não falar na continuidade e coerência com que desenvolve o seu pensamento. Mas também – e no caso não é o aspecto menos importante – pela lúcida e contida coragem de que dá mostras, não só enfrentado os problemas, mas também as críticas.

Se é verdade que não subscrevo tudo o que diz (…), julgo que só nos matizes e num ou noutro desenvolvimento prático isso não acontece. Por exemplo, mal conheço o Doutor Fernando Nobre para ter opinião acerca da sua candidatura, embora me agradem os argumentos que apresenta a seu favor. No essencial e no conjunto reconheço-me nas posições que assume e sinceramente me alegro por ver que há quem as defenda em público e com tal determinação; fazendo votos por que, para além do meu Amigo, elas representem o pensamento de boa parte da nova geração (…).

Felicito-o também pelo apreço que mostra pelo Professor Adriano Moreira, pessoa com quem nunca falei, mas que tenho como o único político que realmente pensa a nossa situação e os nossos problemas a partir do sistema de valores a que o Renato Epifânio chama a cultura, a nossa cultura. Acontece porém que essa cultura ou sistema de valores tem sido sujeito a tão persistente e violento desgaste que se tornou cada vez mais algo virtual e portanto uma referência dificílima de usar com proveito. Estou mesmo convencido de que as forças que nos são adversas – e elas existem, patentes ou ocultas, agindo sobretudo no interior da sociedade –, essas forças há muito dirigem a barragem de fogo contra os valores culturais que possam sustentar a nossa identidade.

Por mim, que nem sou da geração do Professor Adriano Moreira nem da do Renato Epifânio e tenho a noção dos meus limites, mas combato na mesma hoste, tenho-me limitado à defesa e promoção desses valores culturais. A passagem pela política activa, para a qual não tive vocação, resultou de circunstâncias imperiosas e não teve condições para dar real expressão a esses valores. Por isso mais aprecio a atitude do Renato Epifânio e daqui o incito a continuar, pois urge que haja quem dê forma concreta a uma “república” tanto mais desacreditada quanto mais se tornou a bandeira de partidos, que aliás mais parecem bandos de malfeitores.

A tarefa é muito difícil e crucial, tanto mais porque se a Espanha, por exemplo, não envia as suas forças armadas para conquistar Portugal, não desiste do intento de o conseguir por via económica, como é notório, esperando algo semelhante ao que sucedeu em 1580. Por outro lado, os ressentimentos, mesmo se não forem espontâneos, serão artificialmente cultivados, como ainda hoje se observa em muitos brasileiros, passados quase dois séculos da independência, por sinal protagonizada pelo herdeiro do trono português. Dificuldades estas (como outras) que o Renato Epifânio não subestima decerto, embora compreensivelmente procure reduzi-las à dimensão que convém. Aliás, parece-me muito feliz a opção por valorizar tanto o caso de Timor, para quem as nossas responsabilidades são enormes.

Deixe-me só acrescentar que se Portugal, felizmente, não nasceu sobre um poço de petróleo, dispõe de excepcionais condições naturais e estratégicas que só não usa porque, como diz, não tem projecto próprio e deixou de acreditar em si mesmo (…)

Joaquim Domingues
Braga, 13 de Maio de 2010

domingo, 25 de abril de 2010

Caloroso acolhimento do 179º lançamento da Nova Águia no Agrupamento de Escolas Damião de Góis

.
Às 10 horas de sexta-feira, 23 de Abril, foi efectuado o 179º lançamento da revista “Nova Águia” no Agrupamento de Escolas Damião de Góis (de que o blogue da revista dá-nos conta: http://www.novaaguia.blogspot.com/) com a ilustre presença do Doutor Renato Epifânio, membro da Direcção da revista (exercida em conjunto com o Professor Paulo Borges e a Professora Celeste Natário), reconhecido especialista e investigador nas correntes filosóficas portuguesas contemporâneas e porta-voz do Movimento Internacional Lusófono. A sua apresentação incidiu na explicitação dos diversos temas (dos números 1, 2, 3, 4 e 5) já publicados e na sua reflexão pedagógica, bem alicerçada, sobre o papel do mundo e da cultura lusófona segundo o pensador Agostinho da Silva. Esta sua pertinente intervenção despertou, certamente, alguns dos presentes para a leitura do seu livro “A via lusófona – um novo horizonte para Portugal” (Lisboa, Edições Zéfiro, 2010).

A temática do nº 5 da revista “Nova Águia”, ‘Os 100 anos d’ ‘A Águia’ e a situação cultural de hoje’ (1º semestre de 2010), resulta duma abordagem multidisciplinar d’ “A Águia”, no momento em que se comemora o centenário do seu aparecimento (1910-2010). Esta revista reuniu importantes escritores, pensadores e poetas portugueses do início do século XX e tornou-se em 1912 órgão do movimento cívico e cultural da “Renascença Portuguesa”. Foi apresentada uma cópia da capa do número 1, de 1 de Dezembro de 1910, e evocada a premente necessidade de revalorizar o património cultural português no contexto do esboroamento das identidades culturais do nosso mundo Global.

Foram sucintamente enunciadas algumas das múltiplas questões que os colaboradores deste número levantaram e desenvolveram, em particular tendo sido destacadas as seguintes: a origem da revista “A Águia”, a situação cultural portuguesa no contexto mundial, a defesa da educação integral n’ “A Águia”, a relação entre Direitos Humanos e Cultura, as percepções lusófonas de Teixeira de Pascoais, Agostinho da Silva e António Vieira, as diferentes temporalidades e a crise moral de hoje, a poesia como fonte de inspiração do Homem, etc.

Procurou-se também, com base na pluralidade de conteúdos deste número, apresentar alguns paralelismos entre a situação cultural de hoje e a referente ao contexto pós-revolucionário em que a revista “A Águia” nasceu. Enfatizou-se, sobretudo, que a população actual embora alfabetizada sofre de uma profunda iliteracia impeditiva de uma intervenção cívica esclarecida devido ao excesso noticioso da sociedade da informação e à transversal incapacidade de interpretar sinais, enquanto na 1ª República a preocupação incidia em alfabetizar a população para a poder fazer aceder a novos patamares culturais. O professor Nuno Ferrão lembrou, ainda, nesta sessão de lançamento da “Nova Águia” que só com cultura se garantem verdadeiramente as liberdades, as capacidades criativas e a qualidade de vida dos cidadãos.

Nuno Sotto Mayor Ferrão