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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de meia centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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quinta-feira, 4 de março de 2010

Tours

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Ontem, em Tours, onde fui ao lançamento de um "Portuguese Business Club" e encontrar um ativo setor da nossa comunidade, comentei com o "maire" da cidade, Jean Germain, um bom amigo de Portugal e dos portugueses, a beleza da sala da "Mairie" onde estávamos.

Para minha imensa surpresa, disse-me ser aquele exatamente o local onde Léon Blum havia proferido o seu famoso "discurso de Tours", em 27 de Dezembro de 1920.

Num instante, confrontei-me com a memória daquele que é talvez o grande "separar de águas" entre socialistas e comunistas. O "discurso de Tours" é considerado uma das peças políticas mais relevantes do século XX, porque foi através dele que o chefe socialista marcou o seu afastamento face às ideias de Lenine e a sua rejeição em aderir à III Internacional (Internacional Comunista), o que conduziu à melhor definição de uma linha democrática dentro do socialismo francês, que acabou por ter consequências muito importantes em todo o mundo. Com o "discurso de Tours", Blum ajudou a abrir um caminho autónomo, em termos de prática política com efeitos na governação, a uma corrente de pensamento que viria a ser determinante a partir de então e que, em França, daria aos socialistas a autoridade para poderem lançar, com os comunistas, o "Front Populaire" e, muitos anos mais tarde, o "Programme Commun".

Quem vive em França corre o sério "risco" de encontrar a História pelas esquinas do quotidiano.


Francisco Seixas da Costa in Blog “Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”: http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/ ( publicado a 27/2/2010 )

Mindlin

Recebi, há pouco, a notícia da morte, em S. Paulo, de José Mindlin. Tinha 95 anos e, desde há cerca de quatro, era membro da prestigiada Academia Brasileira de Letras (ABL). Era proprietário de uma fantástica biblioteca, a mais importante coleção privada do Brasil, recheada de preciosidades, as quais, por decisão do próprio e da família, estavam destinadas a ocupar um edifício próprio na Universidade de S. Paulo.

Em 18 de Março de 2006, fui com o professor Jorge Couto, diretor da nossa Biblioteca Nacional, e o meu colega Luis Barreira de Sousa, ao tempo cônsul-geral em S. Paulo, fazer uma visita à biblioteca de Mindlin, guiada pelo próprio. Era uma moradia no bairro residencial de Campo Belo, com uma área climatizada, dedicada aos seus cerca de 40 mil livros raros, manuscritos, provas tipográficas anotadas, gravuras, etc.

José Mindlin era um advogado e empresário, filho de um casal de russos emigrados para o Brasil no século XIX, que teve a fortuna de sempre ter dinheiro no momento em que outros vendiam coisas importantes. Estava nas "mailing lists" permanentes dos grandes leilões internacionais e, como nos disse, "eles sabem aquilo de que eu ando à procura". Com uma memória vivíssima e sem falhas, ciceroneou-nos por imensas estantes recheadas de alguns documentos únicos, muitos dos quais ligados a personalidades ou tempos da história portuguesa, de que era um apaixonado. Lembro-me dos olhos "gulosos" de Jorge Couto, um dos nossos maiores especialistas em história luso-brasileira, ao avistar algumas raridades, comentando, com pena, a sua ausência no nosso acervo, em Lisboa: "De facto, este não temos lá!"

No fim da visita, de algumas horas, José Mindlin, acompanhado pela sua mulher Guita (que faleceria um ano depois) ofereceu-nos uma cachaça, com a recomendação: "Não deixem de beber cachaça! Enquanto a beberem é sinal que não morreram..."

À despedida, José Mindlin, que mais tarde passei a encontrar nas minhas frequentes visitas à ABL, teve ainda a simpatia de me oferecer, com uma generosa dedicatória, o livro "Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin, Vol I - Brasiliana" (haverá um volume II?), que inventaria o mundo maravilhoso dos seus livros e onde figura o ex-libris que usava, extraído de Montaigne: "Je ne fais rien sans gaité". Notava-se.

Aqui deixo a minha comovida homenagem a este homem que deu aos livros um lugar central na sua vida.

Francisco Seixas da Costa in Blog “Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”: http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Eça

Há mais de três décadas, uma editora oficial que oferecia os livros que publicava (é verdade, havia disso!), chamada "Terra Livre", deu à estampa as "Imagens do Portugal Queirosiano", de um (até então) para mim desconhecido A. Campos Matos. Vim a saber tratar-se de um arquiteto que se dedicava ao estudo de Eça de Queirós (um "queirosiano", como de diz em Portugal, ou um "ecista", como se diz no Brasil). A partir daí, adquiri tudo quanto Campos Matos publicou, incluindo as duas edições e o suplemento do magnífico "Dicionário de Eça de Queirós", que coordenou.

Surge agora, editado em Paris, da autoria de A. Campos Matos, pela mão das "Editions de la Différence", com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, o livro "Vie et Oeuvre d'Eça de Queiroz". Trata-se não apenas da primeira das (até agora) oito biografia existentes do escritor que surge em língua francesa mas, igualmente, da primeira cuja edição original é aqui publicada.

Os interessados em adquirir o livro devem ter alguma calma. É que, segundo a Amazon, ele só estará disponível no dia 4 de Março. Perdoarão, no entanto, que este "colega" mais novo do antigo cônsul português em Paris usufrua o privilégio de já dispor de um exemplar...

Na impossibilidade de mostrar uma imagem razoável da capa do livro, fica, pelo menos, a clássica fotografia que a ilustra, onde o nosso Eça figura no seu jardim em Neuilly.

Francisco Seixas da Costa in Blog “Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”: http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/ (publicado a 25 de Fevereiro de 2010)

Marcello Mathias

A propósito de uma troca de comentários sobre os diplomatas e a escrita, suscitado pelo anterior post sobre Eça de Queirós, lembrei-me de anotar aqui hoje a figura de um meu predecessor neste posto, o embaixador Marcello Mathias (1903-1999).

Em 1973, surgiu nas livrarias de Lisboa um romance, editado pela Bertrand, com o título "Lusco Fusco", assinado por Pablo la Noche. A obra tinha uma real qualidade literária, apoiada numa escrita culta, um tanto nostálgica, mas com passagens de uma vivacidade inesperada. Foi bem acolhida pela crítica e viria a obter um prémio literário. Veio então a saber-se que o autor era, nem mais nem menos, o embaixador Marcello Mathias, o que suscitou grande curiosidade. Mais tarde, o romance veria a ser editado em França pela Robert Laffont, onde ganhou também um prémio literário, já com o nome verdadeiro do autor e tendo por título o pseudónimo utilizado na edição portuguesa: "Pablo la Nuit". Em Portugal, foi recentemente reeditado pela Quetzal.

Marcello Mathias é uma das grandes figuras da diplomacia do Estado Novo. Muito próximo de Salazar, seria por este convidado para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, função que exerceu entre duas estadas como embaixador em Paris, cidade onde permaneceu mais de duas décadas. É do maior interesse para a história contemporânea o livro que publicou sob o título "Correspondência Marcello Mathias/Salazar (1947/1968)". Num registo de curiosidade, por ele se fica também a saber algo mais do propalado romance sentimental entre o ditador e a jornalista francesa Christine Garnier.

Deve muito à habilidade e inteligência diplomática de Marcello Mathias o resultado favorável da complexa negociação que permitiu a ida para Portugal do valiosíssimo espólio artístico que Calouste Gulbenkian possuía em Paris, uma tarefa para a qual contribuiu a sua grande influência junto do poder político francês da época.

Há já uns bons anos, num jantar algures no mundo, ao lado de um dos seus filhos, o também meu predecessor em Paris, embaixador Leonardo Mathias (outro filho, Marcello Duarte Mathias, é um consagrado escritor e também embaixador), Manuela Margarido, à época representante diplomática de S. Tomé e Príncipe em Bruxelas, contou uma história curiosa. Com várias peripécias interessantes, Manuela - uma personalidade notável, infelizmente já falecida - revelou que fora graças a uma intervenção de Marcello Mathias que, um dia, conseguira evitar ser presa pela PIDE.

À conversa, estavam presentes dois jovens governantes da mesma geração política, um português e outro estrangeiro. Ambos partilharam uma forte e quase jocosa surpresa pelo facto de um dignitário do anterior regime se ter recusado a ser cúmplice de uma arbitrariedade. Talvez porque não percebessem que, sendo embora um fiel "da situação" - como se designavam os apoiantes do regime -, Marcello Mathias era um homem que havia já tido um papel importante na libertação de Alain Oulman, o compositor francês de Amália, das cadeias do regime.

Na troca de palavras que se seguiu, para além de terem provavelmente entendido que as voltas da vida não são tão lineares como as lógicas das ideologias, só posso dizer que os dois governantes aprenderam algumas coisas sobre a dignidade, que o exercício episódico do poder nem sempre ensina.

Francisco Seixas da Costa in Blog “Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”: www.duas-ou-tres.blogspot.com (publicado em 26 de Fevereiro de 2010)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Lauro Moreira

Chama-se Lauro Moreira. Foi, até há dias, o embaixador brasileiro junto da CPLP.

Há três anos, quando foi para Lisboa, vaticinei, junto de muitos amigos portugueses, que a sua presença entre nós iria ser um sucesso. Enganei-me: foi um imenso sucesso.

O Lauro é uma grande figura da cultura, um diplomata do afeto (agora, de vez, sem "c"), que soube, como ninguém, trazer o Brasil para a CPLP - e a CPLP nunca será nada sem o Brasil! Acabou agora o seu percurso português, mas ele sabe que "ficou" por Portugal. E, uma vez mais, provou-se que há diplomatas que fazem a diferença.

Um abraço fraterno ao Lauro e à Liana.

Francisco Seixas da Costa, in Blog "Duas ou três coisas: notas pouco diárias do Embaixador Português em França": http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O "4 de Fevereiro"

Há precisamente 49 anos, um grupo de independentistas angolanos foi responsável, em Luanda, pelo chamado "4 de Fevereiro", a primeira ação armada que foi organizada contra a presença portuguesa em Angola. Com ataques de surpresa a prisões, forças policiais e outros pontos estratégicos da capital angolana, que causaram vítimas mortais, as escassas centenas de ativistas do "4 de Fevereiro" instabilizaram por horas Luanda, sendo subsequentemente alvo de forte repressão - militar, policial e civil -, a qual atingiu também diversos setores da população autóctone residente na cidade.

A data de 4 de Fevereiro de 1961 constituiu, assim, o início das revoltas coloniais contra Portugal, as quais, a partir de 1964, se iriam estender a Moçambique e à Guiné. Entretanto, no final desse ano de 1961, a União Indiana iria invadir o Estado da Índia, pondo um ponto final à presença da administração portuguesa naquele território.

O movimento de "4 de Fevereiro" foi, em si mesmo, um acontecimento bastante complexo, muito mais do que algumas versões simplistas que sobre ele foram mais tarde conhecidas e divulgadas. A sua génese política é também importante para se entenderem as raízes do que foram as profundas clivagens entre os grupos político-militares angolanos, que, logo após a independência do país em 1975, se saldou numa mortífera guerra civil, que, com diferentes formatos, se prolongaria até 2001.

Quando vivi em Angola, nos anos 80, tive o ensejo de conhecer e falar com algumas das figuras envolvidas no "4 de Fevereiro". Pude então saber algo mais sobre esse movimento e, em especial, informar-me com maior detalhe sobre a importância que nele teve uma figura religiosa, o Cónego Manuel das Neves, pároco envolvido na mobilização e no apoio logístico da revolta, que viria a ser preso e expulso para Portugal. Aí ficou com residência fixa, tendo morrido em Soutelo, em 1966. Muito pouco se falou sempre sobre esta figura do nacionalismo angolano e talvez valesse a pena refletir por que razão isso aconteceu.

O "4 de Fevereiro" seria apenas o início, simbólico e trágico, da revolta angolana. Em 15 de Março de 1961, membros da UPA (União dos Povos de Angola), que mais tarde se viria a transformar em FNLA, estiveram na origem de sangrentos e chocantes ataques a populações civis em zonas rurais no norte de Angola.

O efeito conjugado daqueles dois acontecimentos teve uma forte repercussão em Portugal, que iniciou então o envio de forças militares que, por 13 anos, conseguiram assegurar a permanência da soberania portuguesa no território.

As ondas de choque político que esses acontecimentos provocaram, ligadas a outros eventos políticos que então se registaram na sociedade política portuguesa, viriam a contribuir para transformar esse ano de 1961 num dos mais difíceis e movimentados anos da história do Estado Novo. Disso falaremos um destes dias.

Francisco Seixas da Costa, in Blog “Duas ou três coisas: Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”: www.duas-ou-tres.blogspot.com

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Rosa Lobato de Faria

Como muitos portugueses, conhecia Rosa Lobato de Faria apenas pela escrita e pela televisão. Pareceu-me sempre uma figura serena, de bem consigo mesmo, muito alerta para as coisas novas que poderia dar à sua vida e para o que desta poderia retirar, com algum sentido lúdico. A sua intevenção multifacetada no espaço público é disso prova clara, sendo que, para tal, era ajudada por uma interessante bagagem cultural. Dava, além disso, a confortável sensação de ser uma personalidade que aceitava com naturalidade o correr do tempo e da idade.
A televisão trouxe-a, com frequência, à presença dos portugueses residentes no estrangeiro, os quais, estou seguro, vão estranhar a sua ausência. É que Rosa Lobato de Faria fazia já parte de um património de memória do seu país à distância. Neste caso, com um belo e franco sorriso, o que já começa a ser raro, em particular nos dias que por aí andam.

Francisco Seixas da Costa in Blog "Duas ou três coisas - Notas pouco diárias do Embaixador Português em França": http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Camões

Ontem à tarde, o centro cultural Gulbenkian proporcionou-nos uma conferência de António Coimbra Martins sobre temática literária, ligada a Lorenzo di Medici e a Luiz de Camões.

Intelectual e académico, António Coimbra Martins viveu grande parte da sua vida em França, onde teve ação destacada nas fileiras da oposição à ditadura portuguesa. A partir de 1965, criou e dirigiu a biblioteca do centro cultural Calouste Gulbenkian - a maior e mais importante existente fora de Portugal, depois da biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Dirigiu, depois, o próprio centro cultural Gulbenkian (1997-98). Anos antes, havia exercido funções como embaixador português em França (1974-79) e, mais tarde, como ministro da Cultura em Portugal (1983-85).

Ontem, ouvimo-lo, no "seu" centro Gulbenkian, enquanto académico, especular de forma brilhante sobre curiosas coincidências entre aspetos de obras de Médici e de Camões. A quem não é do "ramo", fez imensamente bem ouvir argumentos inteligentes situados em temáticas distantes do nosso quotidiano.

Francisco Seixas da Costa in Blog “Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”: http://www.duas-ou-tres.blospot.com/

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Identidade nacional

O debate sobre a identidade nacional, que o governo francês estimulou nos últimos tempos, tem aqui sido objecto de tomadas de posição muito contrastantes.

Para alguns sectores, tal discussão comporta o risco de derivas no sentido do isolamento de comunidades de origem estrangeira cujas expressões culturais públicas se afastam daquilo que a França tradicional tem por "norma". Nessa perspectiva, as comunidades muçulmanas aparecem como as primeiras visadas e a tentação do apelo a políticas mais restritivas à imigração acabará por ser a resultante final do exercício.

O governo assume uma outra perspectiva. Na sua ideia, é importante tentar identificar aquilo que entretanto mudou na sociedade francesa, permeada por imigrações de várias origens, hoje marcada por expressões sócio-culturais muito diversas oriundas de núcleos de cidadãos nascidos já em França. Essa identificação é feita em paralelo com o sublinhar dos elementos que se entendam relevantes para a fixação de uma matriz identitária, histórico-cultural, colada à especificidade de "ser francês".

Como pano de fundo para esta discussão está a tomada de consciência, para muitos franceses, de que o país onde nasceram era muito diferente daquele em que hoje vivem e que essa mudança foi também produto da presença de estrangeiros e, agora, de novas gerações, já nascidas francesas, deles originários. O modo como a sociedade francesa olha para este facto varia imenso.

Porque este debate assenta muito na questão da introdução da "diferença", sem o qual não teria razão de ser, acaba naturalmente por ser potencialmente mais agressivo para comunidades com origens sócio-culturais que se afastam do padrão europeu tradicional. Quero com isto dizer que ele não afecta diretamente, por exemplo, a comunidade de origem portuguesa.

Estamos longe do fim desta polémica, mas talvez ela acabe por ter de consagrar uma ideia simples que alguém, há dias, apresentou num debate televisivo: gostem ou não alguns cidadãos franceses desta realidade, as regras da cidadania democrática vão acabar por obrigá-los a aceitar essa coisa comezinha de que é francês quem tenha um bilhete de identidade francês.

Francisco Seixas da Costa in Blog: Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pessoa(s)

No sábado passado, na Casa de Portugal, na Cité Universitaire de Paris, teve lugar uma sessão de divulgação sobre Fernando Pessoa, uma excelente iniciativa que se fica a dever ao entusiasmo de Manuel Rei Vilar, diretor da Casa. Música, cinema, leitura de poemas e, muito em particular, um excelente debate sobre a projeção de Pessoa em França ocuparam algumas belas horas, sem perda de ritmo e com grande interesse do público presente.

Numa das suas intervenções, a especialista pessoana Teresa Rita Lopes, que coordenou o debate, contou uma divertida história, que aqui reproduzo.

A propósito do (des)conhecimento que Pessoa sofria, em tempos, aqui por França, Teresa Rita Lopes referiu que José Augusto Seabra (uma figura intelectual e política de quem, em breve, falaremos com mais detalhe) pretendeu um dia obter de Roland Barthes uma carta de apoio para um pedido de subsídio que queria apresentar à Fundação Gulbenkian, com vista a preparar uma tese sobre Fernando Pessoa. Uma recomendação de uma figura como Barthes seria, seguramente, um elemento muito importante para a consideração do seu projeto.

Seabra "mexeu os cordelinhos" e lá conseguiu obter a almejada carta de Roland Barthes, com que contava abrir as portas à obtenção da bolsa. Dias mais tarde, os seus amigos perguntaram-lhe se já tinha enviado a recomendação à Gulbenkian. Embaraçado, Seabra revelou que não, que decidira não juntar a carta ao processo de candidatura. É que Barthes, no seu texto, ao querer sublinhar a importância do trabalho do investigador, referiu que ele pretendia fazer um estudo sobre a obra de "quatro poetas portugueses": Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis...

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sábado, 16 de janeiro de 2010

Haiti

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Hedi Annabi, um diplomata de nacionalidade tunisina, era há muitos anos funcionário da ONU e representava a organização no Haiti. Segundo as últimas informações, terá morrido no terramoto que assolou aquele pobre país.

Annabi era meu amigo e amigo de Portugal. Era uma figura discreta, muito organizada e meticulosa. E um homem de uma só palavra, o que nem sempre é comum na vida multilateral (e noutras também, convenhamos). Em Nova Iorque, quando ele trabalhava no departamento de operações de paz, com o tema de Timor-Leste sobre a mesa, conversamos muitas vezes, pedindo-me sempre desculpa por só raramente poder aceitar os meus convites para jantar, porque vivia "upstate", para onde ia e vinha de comboio. Há cerca de quatro anos, através do meu colega Rui Macieira, Annabi sondou-me para uma tarefa honrosa no âmbito da ONU, hipótese a que me escusei, por vontade de continuar no Brasil. Hedi vai fazer falta, aos seus amigos e à ONU.Este desastre humano e material no Haiti deveria, a meu ver, servir para relançar o debate sobre a necessidade de um urgente reforço, no âmbito das Nações Unidas, das suas estruturas destinadas à ação humanitária, por forma a conferir à ONU um papel central de coordenação das tarefas dos diversos atores, desde a Cruz Vermelha às ONG's, para além dos Estados e das instituições multilaterais. Coisa que hoje não acontece.

Na ordem política interna, é vulgar dizer que não se deve legislar sob a pressão dos factos. Na vida internacional, a experiência prova que os acontecimentos são, quase sempre, a única alavanca eficaz.

A melhor homenagem que se poderia prestar a um servidor da causa da paz como foi Hedi Annabi seria, com certeza, lançar uma iniciativa que ajudasse a comunidade internacional a melhor reagir, no futuro, aos efeitos das tragédias como aquelas que resultaram na sua morte.

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Lusofonia

À volta de um bacalhau e de um Quinta do Cabriz, tive hoje em casa, a almoçar, os meus colegas da lusofonia. A gastronomia de matriz lusa é uma das raras unanimidades no seio dos "oito". A outra é o futebol, claro.Que bom que é esta sensação de podermos discutir as nossas questões comuns na mesma língua! Mas há muito mais, para além dessa facilidade comunicacional: há cumplicidades, referências e um mundo que nos é próximo, que ganha com a diversidade dos vários mundos em que cada um de nós se move. A ver vamos se, em Paris, vai ser possível garantir a conjugação de estratégias e a definição de planos para um bom trabalho conjunto. É importante que a CPLP não seja um grupo de países separados por uma língua comum.

Embaixador Francisco Seixas da Costa in Blog - Duas ou três coisas - Notas pouco diárias do Embaixador Português em França